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Como Iraque pós-Saddam, Líbia pós-Kadafi está longe de ser democrática e pode enfrentar guerra cívil

gustavochacra

22 de agosto de 2011 | 16h00

no twitter @gugachacra

A Líbia pós-Kadafi não será idêntica ao Iraque pós-Saddam, mas haverá algumas similaridades. Primeiro, vamos às diferenças. Os líbios não possuem divisões sectárias, pois quase a totalidade da população é muçulmana sunita. Etnicamente, há uma maioria árabe e uma minoria berbere. Apesar disso, elas não se dividem em dois lados opostos e coexistem relativamente bem.

Já os iraquianos podem ser sunitas, xiitas e mesmo cristãos. Os árabes e curdos, independentemente da religião, eram inimigos desde a criação do país. Durante a ditadura de Saddam, o regime era secular, mas controlado pela minoria árabe sunita que oprimia a maioria xiita.

Para completar, o Iraque estava sob ocupação americana. Não há, por enquanto, a presença de forças estrangeiras na Líbia. A OTAN atuou apenas com bombardeios e apoio logístico, sem ter tropas no campo de batalha.

Ao mesmo tempo, tanto a Líbia quanto o Iraque são países construídos através da união de regiões geográficas. Cirenayca, Tripolitânia e Fezzan, no caso líbio; Mossul, Bagdá e Basra, no caso iraquiano. Os dois países também vêem um regime ser deposto junto com suas instituições. Não existe burocracia de Estado em Trípoli, como também ocorreu em Bagdá oito anos atrás.

Membros do antigo regime na Líbia, assim como no Iraque, estão insatisfeitos. Estes podem atuar para sabotar iniciativas de estabilização através de ataques terroristas. Lembrem-se que Kadafi tem especialidade nesta área, envolvendo-se em atentados nos anos 1980.

Por último, como ressaltou a consultoria de risco político Exclusive Analysis, as nações vizinhas também podem prejudicar a situação. A mais óbvia delas é a Argélia. O regime argelino não quer que os ares de democracia se expandam para o seu território, depois de passar por Egito, Tunísia, Líbia e mesmo o Marrocos, onde a monarquia anunciou reformas. Apenas a Argélia permanece como antes da Primavera árabe.

Por último, como no Iraque, não existe uma liderança clara na Líbia. O protótipo de governo de Benghasi terá dificuldades para se impor em Trípoli. Nada indica que as facções de poder da capital queiram ceder tão facilmente para os grupos do leste líbio.

Portanto, ainda é cedo para falar em guerra civil generalizada, como no Iraque. Mas também é muito, mas muito cedo para se falar em democracia. Em Bagdá, oito anos depois da queda de Saddam, houve avanços, mas o conflito civil não acabou e o Estado democrátilo luta para se consolidar.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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