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Manual para entender a Al Qaeda na Península Arábica

gustavochacra

14 Janeiro 2015 | 12h13

A Al Qaeda na Península Arábica é responsável pelo atentado terrorista na Charlie Hebdo?

O grupo reivindicou o atentado nesta quarta, mais de uma semana após o ataque. Segundo a organização terrorista, eles teriam “escolhido o alvo, planejado e financiado a operação”. Os dois terroristas teriam treinado na base da Al Qaeda na Península Arábica, no Yemen.

Mas dá para ter certeza de que foi a Al Qaeda na Península Arábica?

Não. Pode ter sido um ataque planejado pelos próprios terroristas em Paris, independente da organização terrorista. A Al Qaeda na Península Arábica vem perdendo uma espécie de “guerra de marketing” para o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh (o nome correto a ser usado, na minha opinião). O ISIS domina amplas porções de território no Iraque e na Síria, enquanto a Al Qaeda na Península Arábica vive escondida nas montanhas do Yemen. Hoje jovens com objetivo de virar jihadistas tendem a optar pelo ISIS e não pela Al Qaeda na Península Arábica

Como surgiu a Al Qaeda na Península Arábica?

Na verdade, precisamos entender como estes jihadistas foram parar no Yemen. Por este motivo, temos de entender um pouco da história Yemen.

 1. Guerra Civil do Yemen

Até os anos 1990, o Norte, capitalista e com capital em Sanaa, e o Sul, comunista e com capital em Aden, estavam em Guerra Civil. Em 1994, Abdulllah Saleh, presidente do Yemen do Norte, conseguiu unificar o país. Mas, durante a guerra, atraiu os mujahedeen que lutaram a favor dos EUA contra os comunistas apoiados pela União Soviética no Afeganistão. Por serem anti-comunistas, estes mujahedeen foram fundamentais na luta do Norte contra o Sul

 2. Como os Mujahedeen viraram terroristas

Após a guerra, muitos destes Mujahedeen permaneceram no país e começaram a fazer parte da Al Qaeda, que também surgia ao mesmo tempo em outros lugares, como o Afeganistão e o Sudão. E, aos poucos, o maior inimigo deixou de ser a União Soviética, já inexistente, e passou a ser os EUA. No ano 2000, a Al Qaeda realizou um ataque terrorista contra o porta-aviões americano USS Cole no porto de Aden. Ao todo, 17 americanos morreram. No ano seguinte, a Al Qaeda cometeu o 11 de Setembro

3. Guerra ao Terror

Com estes dois ataques, a pressão dos EUA para o Yemen combater o terrorismo cresceu. Abdullah Saleh, desde o início, se posicionou a favor dos EUA na Guerra ao Terror. O país era relativamente estável, atraindo muitos turistas europeus. Na época, era moda entre jovens americanos estudar árabe no Yemen, por exemplo

4. Formação da Al Qaeda na Península Arábica

Recebendo dinheiro dos EUA, Saleh calculou que precisava manter a ameaça de terror para continuar recebendo financiamento – alguns países fazem isso ao redor do mundo. Alguns o acusam de ter facilitado a fuga de terroristas das prisões iemenitas, inclusive alguns dos atuais líderes da Al Qaeda na Península Arábica. Já estamos ao redor de 2006. Pouco depois, a Arábia Saudita intensificou o combate à Al Qaeda, e muitos membros da organização fugiram para o Yemen. O mesmo ocorrem com integrantes da Al Qaeda no Iraque que sofriam um forte revés com o surge americano. Em 2009, era criada a Al Qaeda na Península Arábica

5. O carismático líder da Al Qaeda na Península Arábica

Entre 2009 e 2012, a Al Qaeda na Península Arábica atingiu seu apogeu. Primeiro, com a liderança de Anwar al Awlaki, um cidadão americano, fluente em inglês, que com vídeos no Youtube conseguia atrair dezenas de jovens do Ocidente e de outras partes do mundo para se juntar ao grupo. Em 2009, o grupo tentou, sem sucesso, explodir um avião que seguia da Holanda para Detroit nos EUA. Também fracassou ao tentar colocar bombas em forma de impressora em um cargueiro para Chicago. Mas, mesmo assim, seguia se fortalecendo, enquanto a Al Qaeda no Afeganistão e no Paquistão se enfraquecia, inclusive com a morte de Bin Laden no início de 2011

6. O começo da decadência

Ainda no fim de 2011, com a morte de Awlaki em ataque de Drone dos EUA, a Al Qaeda na Penísula Arábica começou a se enfraquecer. A Guerra da Síria começou, cada vez mais, a atrair jovens jihadistas para a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria) e o ISIS para lutar contra o regime laico de Bashar Al Assad, e defensor de cristãos e outras minorias como alauítas, drusos e mesmo muçulmanos seculares. Poucos continuaram indo para o Yemen, alvo de ataques de Drones dos EUA

7. Os ataques de Drones

Os EUA já lançaram centenas de ataques de Drones contra a Al Qaeda no Yemen. Grande parte dos líderes do grupo terrorista morreu. Junto, muitos civis também foram mortos nestes bombardeios, levando a questionamentos sobre estas operações no Congresso dos EUA – libertários republicanos e a esquerda do Partido Democrata são contra estes bombardeios de Drones e exigem mais transparência do governo Obama

Na semana passada, escrevi um Manual para entender o ataque terrorista no Yemen. Vou recolocar aqui, para ajudar a entender este país, que visitei para fazer matéria justamente sobre a Al Qaeda para o jornal O Estado de S. Paulo em 2010

Como é o Yemen?

O Yemen é o país mais pobre do mundo árabe. Também possui uma população extremamente conservadora. Cerca de 90% dos adultos são viciados em uma droga chamada qat. Eles a mascam todos os dias em um ritual. Ao todo, há 26 milhões de habitantes. Quase todos são muçulmanos, sendo 65% sunita e cerca de 35% zaydi (considerado por alguns como um braço dos xiitas e adotado como religião pela etnia houthi). No passado, havia uma proeminente população judaica, mas os judeus, quase na sua totalidade, foram levados para Israel na Operação Tapete Mágico.

E  a geografia do país?

O Yemen está ao sul da Arábia Saudita e ao oeste de Omã, no Península Arábica. Possui costa tanto no Mar Vermelho, que o separa do Chifre Africano, como no Oceano Índico. Historicamente, como mostrarei abaixo, o norte fica ao redor de Sanaa, a capital. E o sul, ao redor da cidade portuária de Aden

Qual a história recente do Yemen?

O Yemen ficou independente do Império Otomano depois da Primeira Guerra, mas passou a ser um protetorado dos britânicos, que controlavam o estratégico porto de Aden. Em 1967, o país ficou independente. Mas o sul, três anos mais tarde, fez um revolução comunista. Aliás, o único lugar do mundo árabe onde houve comunismo foi o Yemen do Sul. Sob o comando de Abdullah Salleh, governante do Yemen do Norte, capitalista, as duas regiões se unificaram depois de anos de guerra em 1994. Salleh acabou deixando o poder em 2011, durante a Primavera Árabe

Como está o país politicamente hoje?

O presidente do Yemen é Abd Rabuh Mansur Hadi, ou apenas Hadi, e foi eleito democraticamente depois da Primavera Árabe. Ele possui pouco poder. Meses atrás, os houthis, que por anos travaram batalhas contra o Exército de Abdullah Saleh, tomaram a capital Sanaa tentando impor a ordem e fazer reformas políticas em meio a brigas de facções. A Al Qaeda na Península Arábica, principal braço da organização, decidiu reagir com uma série de atentados terroristas contra os Houthis, que são apoiados pelo Irã e têm como comandante Abdul-Malik al-Houthi – na prática, o presidente do país. Ao mesmo tempo, há movimentos separatistas crescentes no sul

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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