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Manual para entender o acordo dos EUA com o Irã

gustavochacra

24 de novembro de 2013 | 02h28

1 – Quais as obrigações do Irã com o acordo?

. O Irã poderá manter o enriquecimento de urânio até 5%. Para produzir uma bomba atômica, é necessário enriquecer urânio a 90%

. Os estoques de urânio enriquecido acima a 20% deverá ser diluído. Em seis meses, o Irã não terá urânio neste patamar

. As 8 mil centrífugas mais modernas, que poderiam ser usadas no enriquecimento de urânio, não poderão ser instaladas

. As centrífugas já instaladas não precisarão ser desmanteladas

. As obras na instalação em Arak de plutônio (outra via para a fabricação de armas nucleares) deverão ser suspensas

. A Agência Internacional de Energia Atômica poderá inspecionar todas as instalações nucleares iranianas de forma intrusiva

2 – Quais os benefícios para o Irã

. O país poderá ter acesso a cerca de US$ 4,2 bilhões

. Algumas sanções em áreas de metais, incluindo ouro, serão aliviadas e podem beneficiar com mais US$ 1,5 milhão

. Será permitida assistência humanitária

3 – O que acontecerá se o Irã não cumprir o acordo

. As sanções amenizadas serão retomadas e outras ainda mais duras devem ser implementadas

4 – Este acordo significa que os EUA e o Irã restabeleceram as relações diplomáticas?

Não. Washington e Teerã não retomaram as relações diplomáticas. Mas, pela primeira vez em mais de três décadas, possuem canais de diálogo, incluindo as conversas diretas entre o secretário de Estado, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores, Javed Zarif

5 – Quem é contra este acordo?

Israel, Arábia Saudita, outros países do Golfo Pérsico e a maior parte do Congresso dos EUA, incluindo membros dos partidos Republicano e Democrata. No Irã, a ala mais radical do regime também se opõe

6 – Por que Israel, Arábia Saudita e o Congresso são contra?

Porque eles desconfiam que o Irã esteja ganhando tempo. Na avaliação deles, o Irã deveria abdicar de todo o seu programa nuclear, e não apenas reduzir o enriquecimento e sem desmantelar as centrífugas. Além disso, israelenses e sauditas, por questões geográficas, sofrem uma ameaça bem maior de um Irã nuclear

7 – Por que as alas mais radicais do Irã são contra?

Segundo Samy Adghirni, correspondente da Folha em Teerã, os mais conservadores do regime não querem ceder por dois motivos. O primeiro, ideológico. A resistência ao Ocidente é a razão e o argumento para eles manterem tanta força. Em segundo lugar, as sanções e o isolamento favoreceram muita gente, incluindo a Guarda Revolucionária, especialmente na área econômica

8-  Uma ação militar ainda pode ocorrer?

Um ataque dos EUA, neste momento, é impossível. De Israel, não está descartada. Mas seria improvável pois colocaria o governo israelense em rota de colisão com o governo americano

9 – Qual alternativa oferecida por Israel, Arábia Saudita e o Congresso?

Intensificar as sanções, enfraquecendo ainda mais o Irã que, na visão deles, seria obrigado a ceder ainda mais

10 – Este acordo é diferente do proposto por Brasil e Turquia em 2010, aceito pelo Irã, mas rejeitado pelos EUA e seus parceiros?

Sim. Na época, a quantidade de urânio enriquecido pelo Irã era menor. A proposta era o Irã enviar ao exterior enriquecido a 3,5% em troca do envio de urânio a 20% enriquecido em outros países. O Irã poderia enriquecer urânio para fins pacíficos, mas sem um limite estabelecido. Não havia menção ao plutônio e a novas centrífugas

11 – Por que o Irã aceitou um acordo agora?

Por dois principais motivos. As sanções surtiram enorme efeito negativo  na economia iraniana, com aumento da inflação, queda no crescimento econômico e aumento do desemprego. Além disso, foi eleito presidente o moderado Hassan Rouhani, substituindo o radical Mahmoud Ahmadinejad, disposto a negociar e com aval do líder supremo, aiatolá Khamanei

12 – O acordo pode facilitar uma aproximação dos EUA com o Irã em outras questões no Oriente Médio?

Pode, embora ainda não esteja na agenda. Os EUA e o Irã possuem os mesmos interesses no Iraque e no Afeganistão, sendo aliados dos governos de Bagdá e Cabul. Também podem trabalhar juntos no combate à Al Qaeda. Na Síria, estão em lados antagônicos. Os iranianos dificilmente suspenderiam seu apoio ao grupo libanês Hezbollah, considerado terrorista pelos EUA

 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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