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Manual para entender o ataque de Israel ao Hezbollah no Golã

gustavochacra

19 de janeiro de 2015 | 14h55

O que ocorreu ontem nas colinas do Golã, na Síria?

Um helicóptero de Israel bombardeou um comboio de membros do Hezbollah, matando seis membros do grupo e um general iraniano. Um dos integrantes da organização libanesa era o filho Imad Mugnyieh, comandante militar do Hezbollah que foi morto anos atrás em atentado em Damasco

Qual a diferença deste ataque de Israel e outros que os israelenses realizaram na Síria?

Nos outros, os alvos teriam sido armamentos do Hezbollah que seriam transferidos do Irã para o grupo via Síria. Eram bombardeios que se encaixavam nas “regras do jogo” entre os dois lados para manter a trégua. Desta vez, houve vítimas do Hezbollah que não estariam agindo contra Israel e sim contra seus inimigos na Síria

O que os membros do Hezbollah e o general iraniano faziam no Golã?

O Hezbollah e o Irã atuam nesta área há muito tempo durante a Guerra da Síria para apoiar o regime de Bashar al Assad. Seus adversários costumam ser membros da Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria).

 Há uma aliança entre Israel e a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria)?

Segundo o Al Monitor, uma das principais publicações sobre Oriente Médio, Israel estaria agindo em coordenação com a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria). O governo sírio e o iraniano também acusam Israel de ser aliado desta organização considerada terrorista pelos EUA. Rebeldes radicais sírios comemoram o bombardeio de Israel como uma vitória, o que poderia ser um indicativo de simpatia deles com Israel ou de que o Hezbollah e o Irã são inimigos ainda maiores (e de fato são). Mas Israel nega este envolvimento. Se tiver qualquer forma de coordenação, seria uma estratégia israelense para combater o Hezbollah e o Irã, que são considerados inimigos mais perigosos para o país do que a Al Qaeda, que nunca atacou o território israelense e prefere se focar no combate a Assad, ao governo do Yemen, do Iraque, e aos EUA e Europa. Ao mesmo tempo, para Israel, o governo laico de Assad é visto como mais seguro do que um ultra radical da Al Qaeda ou do ISIS que poderia sucedê-lo. De qualquer maneira, tudo é especulação. Israel age defendendo os seus interesses e não os da Frente Nusrah. Mas esta pode ser beneficiada indiretamente com ou sem coordenação.

O ISIS atua nas colinas do Golã?

O ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico e Daesh, não tem forte presença nas colinas do Golã, onde o embate é entre o Hezbollah e Assad, de um lado, e a Frente Nusrah (Al Qaeda na Síria), do outro. Isto não significa que o ISIS não possua células na região.

Qual o interesse de Israel em atacar o comboio?

Pela lógica, não faz sentido. O atual status quo envolvendo o Hezbollah e Israel beneficia os dois lados. Em um conflito, ambos sairiam perdendo. Talvez, os israelenses, aproveitando que o Hezbollah está envolvido no conflito na Síria, queiram mudar as regras do jogo a seu favor. Segundo esta avaliação, o grupo libanês não teria como reagir neste momento

 Qual pode ser a reação do Hezbollah?

Escrevi aqui recentemente que o Hezbollah não tem interesse em um conflito com Israel. Mas irá responder alguma forma. Não dá para saber a proporção da resposta, onde e quando. Pode ser um atentado contra alvos judaicos ou israelenses em outra parte do mundo; pode ser o sequestro de militares israelenses; ou pode ser o lançamento de mísseis contra o território israelense. Mas há seis motivos que levam a crer que, pela lógica, o Hezbollah (e  Israel) não teriam interesse em um conflito

1. um conflito entre Israel e Hezbollah seria pior para os dois. Os israelenses não querem que prédios em Tel Aviv e Haifa sejam bombardeados, possivelmente soldados e mesmo civis sequestrados e centenas morram. E oHezbollah não quer ver o Líbano destruído, especialmente as áreas ao sul do Litani, no norte do Vale do Beqaa e nos subúrbios ao sul de Beirute, que são as áreas controladas pelo grupo.

2. o Hezbollah está em gigantesca guerra na Síria, incomparavelmente mais importante, para a organização, do que o conflito contra Israel. Seus maiores inimigos hoje são os rebeldes sírios, não os israelenses. O grupo não tem condições de lutar em duas frentes.

3. o Hezbollah também enfrenta o risco de uma nova frente de combate dentro do Líbano, onde grupos sunitas inimigos da organização xiita têm ganho força. Sem falar em recentes ações de grupos adversários do Hezbollah na Síria, como a Frente Nusrah, e na presença de 1 milhão de refugiados sírios, majoritariamente sunitas.

4. o Hezbollah, conforme expliquei na semana passada, integra uma coalizão junto com importantes facções cristãs e outros grupos. A política doméstica interfere nas decisões do grupo, que não quer bater de frente com seus aliados internamente – lembrem-se, o Hezbollah é libanês e seus membros moram no Líbano dentro do mosaico religioso do país.

5. o Irã não tem interesse em um conflito pelo menos até o encerramento das negociações envolvendo seu programa nuclear com os EUA e outros países. A prioridade do regime de Teerã é um acordo com os americanos. Além disso, o país tem uma preocupação muito maior em combater o ISIS (Grupo Estado Islâmico) e a Al Qaeda, defendendo seus aliados em Damasco e Bagdá, do que em criar um novo conflito contra Israel neste momento. Além disso, os mísseis do Hezbollah servem para dissuadir Israel de um ataque contra instalações nucleares iranianas e não para se vingar da morte de membros do grupo

6. o Hezbollah age em coordenação com o Exército libanês para evitar o avanço de grupos rebeldes sírios no Líbano. Um confronto contra Israel não é do interesse das Forças Armadas libanesas, que recebem apoio militar americano. Certamente, uma provocação do Hezbollah a Israel seria uma afronta à soberania no Exército libanês neste momento.

 Mas o Oriente Médio tem lógica?

Não. E, por este motivo, há um elevado risco de conflito entre Israel e o Hezbollah, no qual centenas ou milhares de pessoas morreriam no norte israelense e em todo o território libanês.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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