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Manual para entender o ataque terrorista em Sanaa, no Yemen

gustavochacra

08 de janeiro de 2015 | 13h27

O maior ataque terrorista de ontem não ocorreu em Paris, mas em Sanaa, no Yemen. Foram 37 mortos em um atentado da rede terrorista Al Qaeda na porta de uma academia militar na capital iemenita. Estes futuros policiais, que são muçulmanos, estariam na vanguarda da luta contra o terrorismo internacional. Mas nós os perdemos. Recentemente, cerca de 20 meninas foram mortas pela Al Qaeda em outro atentado no país. As maiores vítimas do terrorismo da Al Qaeda e do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh) são os próprios muçulmanos.

Visitei o Yemen em 2010 para fazer matérias sobre a Al Qaeda para o Estadão. É uma nação árabe completamente diferente das outras. Não apenas pelos arranha-céus com séculos de idade na parte velha de Sanaa, construídos cerca de 500 anos antes de os europeus chegarem a Manhattan. Verdade, tem 8, 9 andares. Mas imagine estas construções mil anos atrás?

Para entender o conflito no Yemen, se você tiver algum interesse, fiz um micro manual

Como é o Yemen?

O Yemen é o país mais pobre do mundo árabe. Também possui uma população extremamente conservadora. Cerca de 90% dos adultos são viciados em uma droga chamada qat. Eles a mascam todos os dias em um ritual. Ao todo, há 26 milhões de habitantes. Quase todos são muçulmanos, sendo 65% sunita e cerca de 35% zaydi (considerado por alguns como um braço dos xiitas e adotado como religião pela etnia houthi). No passado, havia uma proeminente população judaica, mas os judeus, quase na sua totalidade, foram levados para Israel na Operação Tapete Mágico.

E  a geografia do país?

O Yemen está ao sul da Arábia Saudita e ao oeste de Omã, no Península Arábica. Possui costa tanto no Mar Vermelho, que o separa do Chifre Africano, como no Oceano Índico. Historicamente, como mostrarei abaixo, o norte fica ao redor de Sanaa, a capital. E o sul, ao redor da cidade portuária de Aden

Qual a história recente do Yemen?

O Yemen ficou independente do Império Otomano depois da Primeira Guerra, mas passou a ser um protetorado dos britânicos, que controlavam o estratégico porto de Aden. Em 1967, o país ficou independente. Mas o sul, três anos mais tarde, fez um revolução comunista. Aliás, o único lugar do mundo árabe onde houve comunismo foi o Yemen do Sul. Sob o comando de Abdullah Salleh, governante do Yemen do Norte, capitalista, as duas regiões se unificaram depois de anos de guerra em 1994. Salleh acabou deixando o poder em 2011, durante a Primavera Árabe

Como está o país politicamente hoje?

O presidente do Yemen é Abd Rabuh Mansur Hadi, ou apenas Hadi, e foi eleito democraticamente depois da Primavera Árabe. Ele possui pouco poder. Meses atrás, os houthis, que por anos travaram batalhas contra o Exército de Abdullah Saleh, tomaram a capital Sanaa tentando impor a ordem e fazer reformas políticas em meio a brigas de facções. A Al Qaeda na Península Arábica, principal braço da organização, decidiu reagir com uma série de atentados terroristas contra os Houthis, que são apoiados pelo Irã e têm como comandante Abdul-Malik al-Houthi – na prática, o presidente do país. Ao mesmo tempo, há movimentos separatistas crescentes no sul

E os EUA?

Os EUA mantêm a política de ataques de Drones contra alvos da Al Qaeda na Península Arábica. As operações têm obtido resultados em eliminar líderes da rede terrorista. Mas algumas ações acabam provocando vítimas civis, alimentando o apoio à Al Qaeda e o sentimento anti-EUA

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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