As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Manual para entender o contexto político das negociações com Irã

gustavochacra

25 de fevereiro de 2015 | 17h35

O acordo que vem sendo negociado entre o Irã e o Sexteto, composto pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) mais a Alemanha, envolve uma série de tecnicalidades complicadas para serem debatidas em um post de blog.  Mas vale a pena debater o contexto político.

Qual o objetivo do acordo?

O objetivo final deste acordo é impedir que o Irã consiga produzir a bomba atômica ou, caso mantenha a capacidade, que esta não seja imediata, permitindo ações externas para impedir. Até agora, vigora um amplo regime de sanções da ONU, da União Europeia e dos EUA. Além disso, há um acordo interino que congelou na prática o programa nuclear iraniano.

O que o Irã ganharia em troca?

O Irã, em troca de concessões em seu programa nuclear, veria a suspensão por etapas das sanções que estão afetando duramente a economia do país, já afetada pela queda do preço do petróleo.

O acordo também poderia aproximar o Irã e as grandes potências em outras áreas, como no combate a inimigos comuns, como o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico, ou Daesh.

Quem é contra o acordo?

O governo de Benjamin Netanyahu avalia que este acordo será insuficiente para impedir o Irã de conseguir a bomba – a piada nos EUA, repetida ontem pelo comediante Jon Stewart, é que, segundo Netanyahu, há uma década o Irã está a um ano de produzir uma arma nuclear. Alguns políticos nos EUA e também a Arábia Saudita, no entanto, têm uma visão similar à do premiê de Israel. Eles defendem que haja mais sanções. Alguns vão além e pregam uma intervenção militar.

O que ocorrerá se não houver acordo?

O Irã tende a se sentir livre para ir em busca de produzir uma bomba atômica. Israel talvez leve adiante uma ação militar. Especialistas dizem que esta ação apenas retardaria por dois anos o programa nuclear iraniano. Além disso, o Irã se sentiria mais propenso a produzir a bomba. Sem falar que o ataque poderia provocar uma guerra regional, com milhares de mortos em Israel, no Líbano (o Hezbollah certamente se envolveria) e no Irã.

Podemos confiar em Obama?

O acordo, na minha opinião, se assinado, será um enorme avanço em direção à paz. Não é Obama apenas que negocia. Cientistas, diplomatas e militares americanos estão envolvidos na negociação. Sem falar nos franceses, britânicos, chineses, russos e alemães. Chega beirar a teoria da conspiração imaginar que o Irã teria capacidade de enganar a todos.

 E no Irã?

Além disso, não podemos esquecer, o Irã não é uma nação monolítica. Há vários centros de poder, com interesses distintos. Tem gente, inclusive, que ganha dinheiro com as sanções. Outros lutam com a própria vida para ver o fim do regime. Sabemos que o presidente Rouhani é moderado. Mas também sabemos que existe uma linha dura no país. Não sabemos qual o objetivo do aiatolá Khamanei. Apenas temos certeza de que o regime iraniano não é irracional.

Qual a chance de acordo ser assinado?

O acordo ainda não foi assinado. Nas próximas semanas, deve ser firmado um pré-acordo, com as diretrizes para um acordo final. Mas este, segundo a consultoria de risco política Eurasia, teria 40% de chance de ser assinado até junho, embora haja um viés de alta.

Como comparar as políticas de Bush e Obama para o Irã?

Antes de criticarem Obama, lembro que seu antecessor, George W. Bush, foi quem mais ajudou o regime de Teerã, ao derrubar, de presente, o maior inimigo iraniano no mundo – Saddam Hussein. E, para completar, ainda tirou do poder no Afeganistão o Taleban, outro inimigo iraniano.

Já Obama impôs o maior regime de sanções da história contra o Irã, conseguindo o apoio da Rússia e da China. Lançou também uma guerra cibernética, em parceria com Israel, multiplicando os esforços para impedir o regime de Teerã para produzir a bomba.

Por que o Irã não pode ter a bomba e Israel, pode?

O Irã, que fique claro, é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), ficando sujeito aos termos do acordo. Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte, todos com armas atômicas, não são signatários. Portanto não estão sujeitos ao TNP.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus.