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Matemática para explicar a libertação de Gilad Shalit

gustavochacra

18 de outubro de 2011 | 17h48

no twitter @gugachacra

ANTES DE COMEÇAR – Como jornalista, gostaria de repudiar a TV do Egito por obrigar uma pessoa que ficou em cativeiro por anos a ser entrevistada. Foi uma tortura inaceitável a atitude destes repórteres e das autoridades do Egito

A vida de um israelense vale mais do que a de um palestino? Não vale. O ser humano é igual no mundo todo. Apenas às vezes tem a sorte de nascer em uma democracia liberal como a Noruega e em outras em um regime nojento como o da Arábia Saudita. Mas como explicar que Israel tenha libertado mil prisioneiros palestinos apenas para ter em troca o Gilad Shalit?

Primeiro, em Israel, o serviço militar é obrigatório. E uma das garantias do Estado é de que todos os seus militares voltarão são e salvos para as suas famílias. Não são medidos esforços para tê-los de volta. E agora entra a matemática. Na verdade, existem cerca de 10 mil palestinos nas prisões de Israel. Grande parte é envolvida em atividades terroristas. Outra parcela cometeu crimes menos graves. Ao mesmo tempo, não existe nenhum israelense em cadeias da Autoridade Palestina. O único detido estava nas mãos do Hamas, que controla a Faixa de Gaza.

Portanto, sendo prático

Total de prisioneiros palestinos em Israel = 10 mil

Total de palestinos libertados = Mil

Percentual de palestinos libertados = 10%

Total de prisioneiros israelenses em Gaza = 1

Total de israelenses libertados = 1

Percentual de israelenses libertados = 100%

Logo, Israel conseguiu a libertação de todos os seus prisioneiros, que seriam apenas o Gilad Shalit. O Hamas conseguiu alguns de seus homens de volta (um em cada de dez), mas mostrou ser mesquinho ao não lutar pela saída de Marwan Barghouti, do Fatah. Coisa de gente covarde, que tem medo de ver um rival forte

Pela lei da oferta e da demanda, Israel faria o máximo para ter o Shalit de volta. O Hamas faria o mesmo para ter a libertação dos 10 mil E eles foram às negociações, que seria o mercado. Ficaram anos indo e vindo, sem chegar a um preço de equilíbrio. Israel não tinha como alterar a sua demanda, que era o Shalit. O Hamas podia chegar ao limite, exigindo 10 mil, ou ao mínimo, 1 para 1. Obviamente, possuía o poder de barganha. No fim, conseguiu 10% do total.

De qualquer forma, com este episódio, vimos que Israel está disposto a ceder caso tenha certeza da contrapartida do outro lado. Isto é, negocia até mesmo com o Hamas, como aconteceu agora. Liberta terroristas, como aconteceu agora. E poderá muito bem entregar Jerusalém Oriental no futuro, como veremos na conclusão matemática do post da teoria dos jogos.

E, voltando para a economia, a libertação dos prisioneiros servirá de incentivo para o Hamas e outras organizações sequestrarem soldados e mesmo civis israelenses. Membros do grupo palestino já indicavam ontem estar dispostos a manter esta prática. Assim, de mil em mil eles acham que chegarão a 10 mil, ou 100%

A pirataria na Somália começou desta forma, assim como o sequestro de pessoas no Rio e em São Paulo. No Iraque, também virou moda. Daqui a pouco, pedirão dinheiro em troca

Obs. A resposta do post da teoria dos jogos será publicada depois da série de matérias sobre a Síria

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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