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Meu depoimento sobre a Guerra do Iraque, Bush, Blair, Hillary e Trump

gustavochacra

07 de julho de 2016 | 11h15

A Guerra do Iraque foi o maior erro de política externa do século 21 e os principais responsáveis são as administrações de George W. Bush, nos EUA, e a de Tony Blair, no Reino Unido. Mais grave, relatório oficial britânico culpa formalmente o então primeiro-ministro por não levar em consideração previsões dos serviços de inteligência do país sobre os enormes riscos de invadir o Iraque.

Blair ficou com medo de estremecer suas relações com os EUA. Covarde, agiu como um poodle. Ao todo, pelo menos 150 mil iraquianos morreram durante a ocupação do Iraque (alguns números indicam até mesmo o triplo deste valor). Milhões se tornaram refugiados. Mas, graças à Síria e ao Irã, que os abrigaram, não houve uma onda de refugiados para a Europa como o caso dos sírios agora – o regime de Bashar al Assad forneceu educação e saúde gratuita a todos os iraquianos, além de fazer questão de proteger os cristãos iraquianos que fugiam do caos provocado pelos EUA e Reino Unido.

Cerca de 4 mil americanos e algumas centenas de britânicos também foram mortos em combate. No caso dos EUA, um número ainda maior de militares se suicidou depois de retornar da guerra – aproximadamente o dobro. Dezenas de milhares ficaram incapacitados de levar uma vida normal devido aos ferimentos. Outros ficaram desfigurados, com corpo inteiramente queimado e sem membros, incluindo sexuais. Enquanto isso, Bush joga golfe em seu rancho.

O Iraque sofreu ainda mais mesmo depois do fim da ocupação. O país se tornou um caos total. Hoje, porções do território são controlados pelo ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Bagdá é a cidade do mundo mais alvejada pelo terrorismo desta organização. Os iraquianos, ao lado dos sírios, são as maiores vítimas dos ataques terroristas do ISIS – e culpe também líderes políticos iraquianos colocados no poder pelos EUA, com o apoio do Irã.

O argumento de Bush e de Blair para a guerra era mentiroso. O Iraque não possuía armas de destruição em massa. Saddam Hussein era inimigo e não aliado da Al Qaeda. O Iraque não ficou democrático.

E noto que Bush e Blair não eram políticos inexperientes. Eram o que há de mais establishment no planeta. E contaram com o apoio do establishment. É natural, portanto, que eleitores americanos e britânicos fiquem revoltados com esta elite política que se acha superior. Bush e Blair erraram feio. Certamente erraram mais do que os eleitores do BREXIT. Estes não provocarão a morte de ninguém como foi o caso do ex-presidentes e do ex-premiê.

Donald Trump tenta se aproveitar deste erro. Mas ele foi a favor da invasão do Iraque, embora possivelmente o atual candidato não soubesse apontar o país no mapa na época. Posteriormente, quando a guerra se mostrou um fracasso, ele passou a dizer que era contra. Mais grave, agora Trump deu para elogiar Saddam, dizendo que o ditador iraquiano combatia o terrorismo. Isso é grotesco e deveria inviabilizar sua candidatura.

Saddam, na verdade, era inimigo da Al Qaeda, mas apoiava o terrorismo de outras organizações, especialmente em ataques contra Irã e Israel. Cometeu genocídio de curdos e massacrou xiitas. Matou opositores em escala industrial.

Isso, porém, não justifica uma guerra para derrubá-lo. A não ser, claro, que outras ditaduras sanguinárias também fossem depostas. No entanto muitas delas eram e continuam sendo aliadas dos EUA e do Reino Unido. Quer algum exemplo? China, Egito e Arábia Saudita.

Hillary Clinton também tem culpa porque votou a favor da invasão do Iraque. É um erro grave. Ela agiu da mesma forma que Bush e Blair. Tem apenas o argumento de ter sido enganada, diferentemente do premiê britânico. Bush talvez tenha sido realmente enganado por seu secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e pelo vice-presidente, Dick Cheney.

Os EUA tinham razão em invadir o Afeganistão. O regime do Taleban deu guarida à Al Qaeda, responsável pelo 11 de Setembro. Ao não respeitar ultimato para entregar líderes da rede terrorista, sofreu as consequências. Mas o Iraque não tem nada a ver com o 11 de Setembro. Foi um dos maiores crimes de guerra da história. Blair, Bush, Rumsfeld e Cheney, entre outros, deveriam ser julgados por crimes de guerra.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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