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Meu texto para nós palmeirenses campeões brasileiros

gustavochacra

27 de novembro de 2016 | 22h56

Sempre falei da diferença de ritual e rotina. Para mim, na segunda-feira cedo, era ritual comprar a Gazeta Esportiva ou o Jornal da Tarde. E, na terça, a Placar para ler sobre o Palmeiras. Assim como era ritual brigar pelo caderno de esportes do Estadão com meu irmão nos outros dias da semana para ler qual seria a escalação do Palmeiras contra o Noroeste ou ler as notas depois de um clássico contra o Corinthians. Virei jornalista por causa do Palmeiras. Assim como muitos outros palmeirenses e jornalistas.
Para mim, a vida nos anos 1980 era voltar da praia implorando para o meu pai, que não gosta de futebol, ligar um pouco o rádio na Belina ou na Quantum para eu escutar o jogo do Palmeiras. Isso quando eu não tinha de ouvir o do São Paulo por causa do meu irmão mais velho. Às vezes, eu só sabia o resultado chegando a São Paulo e ligando no 200-1982 da Telesp que dizia os resultados. Mais tarde, ficava vendo o Avalonne na Mesa Redonda. Anos depois, no intercâmbio na Carolina do Sul, minha mãe me enviava todas as segundas por correio a classificação do Palmeiras no Brasileiro.
Ao estádio, eu só conseguia ir umas três vezes por ano quando tinha Palmeiras versus São Paulo. Afinal, meu pai aproveitava para agradar dois dos seus três filhos – o do meio odeia futebol e até hoje tem fobia do Globo Esporte que ele teve de assistir toda a infância. Nestes dias, meu pai me deixava comprar uma bandeira do Palmeiras e eu vestia a minha camisa do Leão (goleiro) para gritar “Dá-lhe Porco”. Tempos de Edu Manga, Jorginho, Mirandinha, Vagner e até Dênis…
Quando nasci, em 1976, o Palmeiras entrou na fila. Isto é, não conseguia mais ser campeão. Todos os anos era eliminado. Em alguns, com requintes de crueldade, como 1986, contra a Inter de Limeira, em 1989, contra o Bragantino. Eu andava na praia e ficava sonhando com o dia que o Palmeiras seria campeão. Mas nunca chegava. Inventava campeonatos de cabeça ou usava mesmo o Playmobil para criar cenários simulando o Palmeiras campeão. Mas, na vida real, só ganhava o São Paulo e, às vezes, o Corinthians.
Até, claro, aquele 12 de junho de 1993, quando fomos campeões paulistas. E fomos bi. E bi brasileiro. E o melhor time do mundo em 1996. Conquistamos a Libertadores em 1999. Mas parecia um filme. Em 2002, veio o primeiro rebaixamento. Três anos mais tarde, vim morar nos EUA. O Palmeiras ficou lá longe. Não tem jeito, fomos perdendo um contato. Como se fosse nosso melhor amigo de infância que mudou de cidade e só vemos em fotos no Facebook.
Mas eis que, hoje, eu reencontrei meu melhor amigo. Talvez porque esteja sozinho em Nova York, longe da minha mulher e da minha filha que foram por uma semana ao Brasil. Talvez porque eu estivesse de plantão na redação da Globo cobrindo a morte do Fidel para a Globo News. Talvez porque o único outro palmeirense na redação era o Vinhas e ele estava tendo de editar nesta hora. O Tigrão não foi hoje. E eu estava ali sozinho, com uma TV, na Globo e aos poucos fui viajando ao passado. Tive de chorar escondido na hora que fomos campeões. Era como, se por um dia, eu estivesse nos anos 1980 vendo o Palmeiras campeão de verdade. Ainda que, tirando o Jailson, o Prass e o mito Zé Roberto, todos os outros tenham nascido nos 1990. O Gabriel Jesus, maior jogador do Brasil, é de 1997, se não me engano, quando jogamos a final contra o Vasco.
E agora não consigo para de ver o vídeo da Globo em homenagem ao Palmeiras.
Este texto é em homenagem a todos os palmeirenses que cresceram nos anos 1980 escutando “Cala a Boca Palmeirense que você nunca viu seu time ser campeão”. Desculpem, mas quem não é campeão faz tempo é outro time. Hoje, o Palmeiras é o atual campeão brasileiro e da Copa do Brasil.

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