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Michel Gherman explica as “duas” Israel – Tel Aviv x Jerusalém

gustavochacra

04 Janeiro 2017 | 15h06

Fiz uma entrevista com o Michel Gherman sobre Israel. É, sem dúvida, um dos acadêmicos que mais bem conhece a nação judaica tanto em Israel como no Brasil. Mais do que isso, o Michel escreve de forma simples e didática. E, nesta entrevista, há duas perguntas que são interligadas. Na primeira, basicamente, o Michel conta a história de Israel com foco nos kibutzim (fazendas coletivas) e nos Yeshivot (academias de estudo religioso). Na segunda, o Michel se aprofunda na Israel “Tel Aviv”, que é cosmopolita e liberal, e a Israel “Jerusalém”, mais religiosa e conservadora. Vale muito a pena ler. Em tempo, o Michel é professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E, obviamente, críticas, com respeito e educadas, são bem vindas
1) No passado, muitos judeus do mundo partiam para Israel para viver em um kibutz e a nação era associada à esquerda. Hoje, muitos jovens vão para Yeshivas e o país está associado à direita. Por que ocorreu este processo em Israel?
Bom, essa pergunta nos faz retornar a um debate importante e pouco conhecido, a história do movimento sionista.  Politicamente o sionismo nasce em fins do século XIX e dentre outras questões, ele traduz elementos religiosos e tradicionalistas em conceitos politicos e ideológicos. Um de seus elementos mais importantes, tal qual ocorria em outros movimentos nacionalistas do período, é a valorização extrema da terra e dos elementos da “cultura nacional”.  No caso do sionismo, principalmente nos grupos ligados ao sionismo de esquerda (provenientes em sua grande maioria da Europa do leste), isso dignificava a negação da diáspora judaica.
Mas o que significava a negação da diáspora para o judeu de inícios do século XX?  Nesse contexto, negar a diáspora era, basicamente, negar toda a cultura judaica de comunidades que estavam fora da Palestina (posteriormente Israel).  Assim, a Imigração para Israel (Aliá)  deveria ser acompanhada por rupturas. Os judeus sionistas deveriam romper com a cultura religiosa judaica (religião era coisa da diáspora), com os idiomas falados na diáspora (por exemplo o idishe) e deveriam romper com as ocupações profissionais tipicas da diáspora (comércio, por exemplo), adotando gradativamente (era esta a utopia sionista) , profissões ligadas ao  trabalho na terra.
Neste contexto, o kibutz (agrícola, igualitário e coletivista) era (ou deveria ser) o destino do verdadeiro sionista. As Yeshivot (academias de estudo religioso), em contrapartida, eram a antítese da utopia. Os estudos religiosos e o afastamento do trabalho no campo eram o contrários do que propunha o sionismo. Assim, para o movimento sionista, o ideal seria a reprodução de kibutzim (fazendas coletivas) e a gradual extinção das yeshivot.
Assim, não havia sentido algum que algum jovem judeu sionista fosse viver em Israel e estudar em Yeshivot. Ele deveria ir para kibutzim plantar e trabalhar da terra. Por paradoxo que isso possa parecer, os religiosos judeus ortodoxos não são sionistas, são geralmente não sionistas e em alguns casos anti-sionistas.
A situação começa a mudar a partir de 1967 e principalmente a partir de 1967 e, principalmente a partir de 1977. Após a Guerra dos Seis Dias (que completa 50 anos em junho deste ano), há o fortalecimento de um pequeno grupo do sionismo, os nacionalistas religiosos. Este grupo, conhecido também como ortodoxos modernos, acreditava que o sionismo era, de fato, um atalho para a redenção messiânica. Eles serviam o exército, tinham seus próprios kibutzim e mantinham um estilo vida moderna.
Com a invasão dos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e  a posterior ocupação de territórios que eram jordanianos e egipcios, mas que contavam com população palestina, esses grupos começam a dar sentido religioso e politico a construção de colônias  nessas
terras. Segundo sua leitura política, ocupar e expandir as colônias, era acelerar o processo de redenção religiosa.
A situação somente se radicaliza quando em 1977 a direita sionista chega ao poder. Aliado dos religiosos nacionalistas, o governo de Menachem Beguin apoia a expansão  de colonias e o aumento da ocupação. Gradativamente, a agenda sionista passa a estar baseada em ser a favor ou contra da colonização dos “territórios”, ser a favor ou contra acordos de paz com os árabes.
Esta direita religiosa e sionista cresce justamente com o aumento da colonização e com o acirramento da tensão com os palestinos. A partir dos anos 1970 abrem-se batalhões religiosos no exército,  yeshivot vinculadas e esse grupos surgem e há um forte trabalho dos sionistas modernos em comunidades da diáspora.
Hoje Israel é um país profundamente dividido, onde grupos tradicionalistas e de direita lutam por manter (ou criar) um estilo de vida judaico em um Estado que deveria (segundo eles) ser mais judaico que democrático, enquanto que , de outro lado, há grupos mais seculares e universalistas, que lutam para diminuir a influência da Religião em Israel, lutando por construir um Estado com referencias mais democráticas do que judaicas.
Pode-se dizer que os grupos mais conservadores e religiosos estão ganhando esta “guerra cultural” tanto em Israel (vide as atitudes do atual ministro da Educação), quanto na diáspora. Na comunidades judaicas,  eles que assumem a defesa de Israel e de um pretenso “sionismo verdadeiro” (notem que ele nada tem a ver com o antigo sionismo trabalhista), levando cada vez mais jovens para yeshivot e menos para kibutzim.
2) Politicamente, Tel Aviv e Jerusalém são tão díspares quando a Califórnia e o Texas. Por que “Jerusalém” tem sempre superado “Tel Aviv” em eleições recentes?
Jerusalém e Tel Aviv são mais do que cidades muito diferentes, elas são projetos de mundo distintos. Continuando a questão acima, Tel Aviv é tudo que o sionismo trabalhista sonhava, Jerusalém é seu pesadelo. Tel Aviv é moderna, secular e cosmopolita, Jerusalem é antiga, religiosa e particularista. Tel Aviv é construção do Sionismo, Jerusalém é a sobrevivente da história judaica. Jerusalém faz com que o futuro de Israel seja um, Tel Aviv pretende que o futuro do país seja outro.
Nada mais natural que em duas cidades tão polarizadas e distintas elejam candidatos distintos. Durante anos o modelo de Tel Aviv foi hegemônica, os modelos politicos e culturais da cidade eram expandidos para toda Israel. Nos ultimos anos, entretanto, acontece o contrário. É Jerusalém que garante sua força politica, os modelos particularistas e tradicionalistas .
A meu ver, isso ocorre por alguns motivos:
Primeiramente, há uma mudança demográfica em curso na sociedade israelense.Aqui,  me refiro primeiramente ao crescimento da população religiosa frente ao população secular do país. Além disso, um modelo radical de multiculturalismo permite que populações religiosas e conservadores não sejam desafiadas nas escolas e na formação politica. Comunidades distintas tem formação distintas, currículos escolares distintos e valores distintos. Assim, se consolidam modelos de votação mais ou menos fixos. Nesse contexto, o crescimento demográfico de   populações específicas garante votação quase total e absoluta para campos específicos. Religiosos votam mais na direita, por exemplo, se há mais religiosos do que havia antes, há mais votos para a direita do que antes. Tel Aviv sofre com isolamento politico (a bolha, como é conhecida) e com relativa estagnação demográfica. Seculares ( aqui Tel Aviv é apenas um modelo que pode ser aplicado na Israel progressista) tem menos filhos que os religiosos tem. Dessa forma, seculares, que votam mais na esquerda, passam a ter menos eleitores que os religiosos.

Em segundo lugar, a memória da Segunda Intifada marcou a alma dos Israelenses.  O acirramento do conflito palestino israelense, principalmente entre os anos 2000 e 2005, fez com que grande parte da sociedade israelense perdesse a esperança nos acordos de paz e se juntasse a direita. Durante 5 anos, a imagem de onibus explodindo, corpos despedaçados fez com que o país virasse mais Jerusalém do que Tel Aviv. Nesse contexto, pode -se afirmar que grupos fundamentalistas palestinos

(Hamas, por exemplo) e grupos extremistas israelenses se retro alimentam. A violência de um fortalece politicamente o outro, criando -se um ciclo vicioso de violência e sucesso político conservador.
Em terceiro e ultimo lugar, há a consolidação de identificação  étnica  e política.  Judeus de origem oriental e mais pobres votam mais na direita, enquanto que judeus de origem europeia e mais ricos votam na esquerda. Aqui há um vinculo entre religiosidade e perfil social. Judeus orientais acusam os governos de esquerda de terem sido historicamente discriminadores com  relação a judeus não europeus.