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Minha carta para nós brasileiros descendentes de sírios e libaneses

gustavochacra

07 Setembro 2015 | 18h20

Meus bisavós imigraram do Líbano para os EUA no final do século 19. De acordo com registros de Ellis Island, eles eram da etnia “síria”, tinham 20 anos e vieram no navio La Normandie, embarcando na França. Junto com milhões de imigrantes de todas as partes do mundo, desembarcaram em Nova York.

Inicialmente, moraram no que viria a ser Little Syria – seria aproximadamente o que corresponde hoje à região do World Trade Center. Depois, foram para New Hampshire, onde há uma proeminente comunidade libanesa, incluindo senadores, ex-senadores e ex-governadores. Os irmãos do meu bisavô ficaram por lá – ainda se encontram muitos Chacras em Manchester.

Meu bisavô Hanna Chacra, porém, decidiu voltar para Rachaya, no que hoje é o Líbano, mas na época era o Império Turco Otomano. Apenas para localizar, esta vila se localiza bem perto da Tríplice Fronteira Líbano-Síria-Israel. Alguns anos se passaram, e ele acabou decidindo imigrar de vez. Mas foi para o Brasil, embarcando antes do resto da família.

Meses depois, minha bisavó, com meu tio-avô (Mansur, nascido nos EUA), minha tia-avó (Badia) e meu avô (Adib) pegaram o navio em Beirute para encontrar meu bisavô no Brasil. No caminho, minha bisavó morreu (as viagens eram duras) e o corpo dela foi deixado na África – no Senegal, segundo consta. Meu tio-avô, já quase um homem, teve de seguir viagem com os irmãos mais novos até encontrar o meu bisavô, agora viúvo, no porto de Santos – ele apenas soube da morte da mulher depois da chegada dos filhos.

Minha avó, Lorete Salum Buassaly, que viria a ser Chacra, também nasceu em Rachaya. Ela era cristã melquita, ou Rom-Catholic, em árabe – Rom de Roma, mas a Roma “Constantinopla” – portanto, grego-católica. Meu avô, era Rom-Orthodox (cristão grego-ortodoxo). Ela também deixou o Líbano ainda criança. Na época, o Líbano era Mandato Francês.

A família dela foi embora quando soldados senegaleses, a serviço do França, atacaram Rachaya em uma guerra contra a Síria. Notem que, na época, Rachaya era culturalmente mais próxima de Damasco do que de Beirute. Ficava na rota da capital síria para Haifa e Jaffa, hoje território israelense – Hasbaya e Marjayoun tinham um perfil similar. Com muitas casas incendiadas, minha avó pegou as bonecas e, com os meus bisavós, rumou para Beirute e, da capital libanesa, embarcou de navio para São Paulo.

Meus avós aprenderam português no Brasil. Meus bisavós ficaram com o árabe mesmo e algumas palavras em português. Meu avô cresceu e ganhou dinheiro com comércio e imóveis em São José do Rio Preto. Minha avó sempre foi a matriarca e criou cinco filhos.

Um deles é meu pai, Antonio Roberto Chacra, que estudou em colégio público, passou no vestibular da Escola Paulista de Medicina (atual UNIFESP), fez residência em endocrinologia, veio para uma fellowship em Dallas (Texas), onde morou alguns anos. Aos 38 anos, foi o mais novo professor titular da história da Escola Paulista e até hoje é um dos maiores nomes do tratamento de Diabetes no mundo – Foi vice-presidente da International Diabetes Federation.

E eu, filho dele, sigo aqui no Estadão e na Globo News tentando explicar os conflitos na terra onde nasceram 50% dos meus antepassados. Absolutamente todas as pessoas do meu lado paterno, por séculos ou milênios, nasceram e viveram naquilo que hoje é o Líbano e a Síria. Já estive algumas vezes em Rachaya, com e sem meu pai. É mágico saber que, nesta vila montanhosa no oeste do Vale Beqaa estão as minhas raízes. Por este motivo, vejo a Guerra da Síria como algo pessoal também. Meu pai poderia ser um refugiado hoje se não fosse a imigração no passado.

Como eu, há milhões de brasileiros descendentes de sírios e libaneses com histórias parecidas. Acho que nós temos de estar na vanguarda da defesa dos refugiados, pois, no mundo todo, não há um lugar onde pessoas vindas da Síria e do Líbano, sejam refugiadas ou imigrantes, tenham alcançado tanto sucesso. Temos de provar que os refugiados e imigrantes, como nossos avós e bisavós, tem tudo para dar certo onde forem recebidos. E temos de ajudá-los.

Peço desculpas aqui para a minha mãe por falar só do lado libanês da família, deixando de lado o português e italiano. Mas foi só neste caso. Aprendi natação com a minha mãe.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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