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Minha visita ao palco do massacre de Sabra e Shatila

gustavochacra

17 Setembro 2017 | 14h00

Escrevi o texto abaixo há exatos dez anos para o jornal O Estado de S. Paulo. Ainda assinava Gustavo e não Guga. Foi sobre o aniversário de 25 anos do Massacre de Sabre e Shatila, ocorrido em 1982. Hoje faz 35. Na reportagem, visitei fiz os campos de refugiados palestinos e também entrevistei lideranças cristãs

 

Gustavo Chacra

Especial para o Estado

Beirute

 

Os libaneses adoram dizer que fazem festa mesmo durante as guerras. Nos 15 anos do conflito civil (1975-90), as pessoas tomavam sol nas praias, se formavam nas universidades, viajavam a negocios, frequentavam cinemas e jantavam em restaurantes que eram inaugurados ao som de bombas. Porem, alguns episodios da guerra libanesa chocaram o mundo, que passou a prestar mais atencao neste minusculo pais mediterraneo. O maior deles foi, sem duvida, o massacre de Sabra e Shatila, que completa 25 anos neste fim de semana.

Entre os dias 15 e 17 de setembro de 1982, milicias cristas entraram nos campos palestinos no suburbio de Beirute matando entre 700 e 3.000 moradores – ha divergencia entre o numero de mortos, pois muitos corpos foram jogados em valas comuns e outros queimados. A maioria dos mortos era palestina, mas tambem havia muitos muculmanos libaneses. Os cristaos queriam se vingar da morte do presidente Bashir Gemayel – aliado de Israel e morto um dia antes em atentado atribuido na epoca aos palestinos – e nao tiveram piedade de quem vivia em Sabra e Shatila. Mataram mulheres gravidas, idosos e criancas. Grande parte das vitimas foi assassinada a facadas. Algumas pessoas foram cortadas em pedacos. Homens chegaram a ser decapitados. Mulheres eram estupradas na frente dos maridos. Tudo isso em campos que estavam sob o controle do Exercito de Israel que, comandado por Ariel Sharon, ocupava pela primeira e unica vez em sua historia uma capital de um pais arabe (leia nesta pagina). Os militares israelenses observavam os cristaos libaneses massacrando os palestinos. Ninguem fez nada para impedir. Os portoes foram “abertos” para as milicias cristas. Os militantes da OLP, que antes faziam a seguranca do campo, haviam deixado Beirute semanas antes.

Hoje, os campos nao ficam a mostra dos turistas que vem visitar Beirute. Mesmo os moradares nao sabem dizer onde comeca Sabra e onde termina Shatila. Sao duas areas miseraveis e esquecidas atras de um estadio de futebol na beira da estrada que liga o aeroporto ao centro de Beirute.

Diferentemente de outros campos palestinos, Sabra e Shatila nao sao controlados pelo Fatah ou pelo Hamas. Ha membros dos grupos rivais la dentro, mas para entrar nao eh necessario mostrar passaporte ou autorizacao a nenhum palestino. Tampouco existem guardas armados com bandeiras palestinas, como ocorre nos campos de Sidon e Tripoli. Imagens de lideres libaneses sao mais comuns do que de figuras palestinas nas ruelas ainda destruidas desses campos, onde criancas se amontoam para pegar um prato de sopa servido por ONGs.

Da populacao atual, poucos estavam vivos quando ocorreram os massacres. Na ultima sexta-feira, a primeira do Ramadan (mes sagrado para o Isla), o Estado visitou Sabra e Shatila e conversou com alguns dos sobreviventes.

“O auto-falante da mesquita pediu que nos ficassemos quietos e nos escondessemos, porque as milicias cristas estavam entrando nos campos”, diz Rafiza Hatib, de quase 70 anos. Ela se escondeu na mesquita e disse que, apos os ataques, junto com outras mulheres, teve que limpar as ruelas que ficaram sujas de sangue. No meio, viu varias cabecas. Sua vizinha Fatima Islam viu o proprio cunhado ser decapitado. “Eles [o cunhado e a irma dela] passaram a noite na minha casa e, de manha, quando tentavam ir ver o que aconteceu com a casa deles, foram pegos pelas milicias [cristas] e arrancaram a cabeca dele. Minha irma foi levada e morta em seguida. Eu consegui fugir”.

Adnam Alidawi, que hoje eh um dos representantes do Fatah no campo, tinha apenas 20 anos. Perdeu varios amigos no massacre. “Tinha que me esconder cada hora em um lugar”, diz. “Eles matavam com crueldade, cortando a cabeca ou corpo em pedacos, estuprando as mulheres. Os ataques duraram dias e os israelenses apenas olhavam”, afirmou.

Os simpatizantes das milicias cristas libanesas se defendem. Evitando comentar sobre o massacre, Fouad Abu Nader, ex-lider da Falange e sobrinho de Gemayel, lembrou ao Estado que o tio era um lider carismatico que havia sido eleito presidente um dia antes. “Ele era insubstituivel para os cristaos libaneses e tinha apenas 34 anos quando foi morto”, provocando a ira dos cristaos. Ha um mito segundo o qual os cristaos teriam saido mais fortalecidos da guerra civil se Gemayel estivesse vivo – ele foi sucedido na Presidencia do pais pelo irmao mais velho Amin, considerado bem mais fraco politicamente. Sobre a alianca com Israel, um ex-lider de milicia crista que preferiu nao se identificar, afirmou que era a unica saida para eles. “Os muculmanos podiam ter amparo de varios paises arabes. E nos, cristaos, a quem poderiamos recorrer a nao ser aos israelenses?”, disse o ex-miliciano, que esteve quatro vezes em Israel para treinamento durante a guerra civil, e que hoje mora em Mar Elias, tipico bairro de classe media crista de Beirute, onde muitos predios tem a imagem de Nossa Senhora na porta.

Em Beirute, 25 anos apos Sabra e Shatila, o odio de muitos cristaos aos palestinos ainda nao diminuiu. Jovens membros das Forcas Libanesas – grupo radical cristao libanes – que se encontraram com o reporter do Estado afirmaram que os palestinos nao podem de forma alguma ser integrados a sociedade libanesa, pois isso iria contra a balanca sectaria. Perguntados sobre o que fazer com os palestinos, eles defenderam a expulsao ou ate “mesmo coisas piores”, que eles nao quiseram desenvolver. Essa visao, no entanto, eh de uma minoria que ainda vive nos tempos das milicias. A maior parte dos libaneses tampouco quer a integracao plena dos palestinos, mas acha que a saida esta em uma negociacao internacional e nao na eliminacao, como em Sabra e Shatila.