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Quem era Boutros Boutros-Ghali, um dos últimos levantinos do Egito?

gustavochacra

16 de fevereiro de 2016 | 17h45

Boutros Boutros-Ghali, ex-secretário-geral da ONU, que faleceu hoje aos 93 anos, era um dos últimos resquícios de um Egito multicultural destruído ao longo dos últimos 70 anos. Boutros, que quer dizer “Pedro”, em árabe, era um cristão copta, casado com uma judia, Leia Maria Boutros-Gali. Ambos egípcios.

Em entrevista ao New York Times, nos anos 1990, Boutros-Ghali disse que ele e sua mulher brigavam em árabe, discutiam negócios em inglês e faziam as pazes em francês. Este casal formado por um cristão do Cairo e uma judia de Alexandria seria quase impensável nos dias de hoje.

Neto de um ex-premiê do Egito, no começo do século 20, Boutros-Gali se formou na Universidade do Cairo, fez mestrado na Science Po na França, doutorado na Universidade de Paris e ainda estudou na Universidade Columbia de Nova York. Foi, ao longo da carreira, fundamental nas negociações de paz entre Egito e Israel, embora fosse um árduo defensor dos palestinos. Na ONU, bateu de frente com o governo de Bill Clinton e acabou sendo vetado, pelos EUA, para concorrer a um segundo mandato como secretário-geral.

O Egito de Boutros-Ghali, que poderia ser uma potência regional, começou a desmoronar com a chegada de Nasser ao poder. A ideologia estatizante de identidade arabista não tolerava mais o multiculturalismo mercantil levantino do qual faziam parte Boutros-Ghali e sua mulher. Eles ainda conseguiram sobreviver, pois Boutros-Ghali integra uma das mais influentes família egípcias. Mas era algo raro. E os judeus, como Leia Maria, foram quase todos expulsos por Nasser.

Insisto e insistirei quantas vezes for necessário – o Egito, assim como a Síria, começaram a decair quando deixaram de ser levantinos.

Guga Chacra, blogueiro de política internacional do Estadão e comentarista do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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