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Morre o verdadeiro líder xiita do Irã e principal crítico da República Islâmica

gustavochacra

20 de dezembro de 2009 | 15h31

Morreu o aiatolá Hossein Ali Montazeri, aos 87 anos, de problemas cardíacos, segundo a família. Se ele tivesse sido, em algum momento, o líder supremo do Irã, a história deste país poderia ter tomado outro rumo. A repressão seria menor, as mulheres desfrutariam de mais liberdade e a política exterior teria um viés menos hipócrita. Quem sabe, o regime sequer existiria e o Irã seria hoje uma democracia secular, com separação entre religião e Estado. Este religioso, talvez o mais importante atualmente, era o número dois do aiatolá Ruhollah Khomeini, que comandou a revolução islâmica em 1979. Ao longo dos anos 1980, seu nome foi considerado o mais forte para suceder o carismático líder xiita iraniano no topo do regime islâmico em Teerã.

Mas, aos poucos, Khomeini e Montazeri se distanciaram. O segundo se opôs à fatwa contra o escritor e playboy internacional Salman Rushdie pelo livro “Versos Satânicos” – que, por pior e mais preconceituoso e mentiroso que seja, representava o direito à liberdade de opinião e deveria ser criticado em resenhas, não condenado à morte. De acordo com o New York Times, Montazeri era contra à determinação de matar o escritor “porque o mundo terá a idéia de que o negócio do Irã é apenas matar as pessoas”. Também criticou duramente Khomeini pelo episódio Irã-Contras.

Khomeini, insatisfeito com Montazeri, decidiu substituí-lo pelo fraco aiatolá Khamanei para sucedê-lo depois de sua morte. Montazeri se resignou a permanecer na sua cidade de Qom, de onde esporadicamente criticava o novo líder supremo. Diferentemente de Khomeini, a quem respeitava apesar das diferenças, Khamanei nunca recebeu elogios de Montazeri, que era o verdadeiro líder religioso no Irã. Para Montazeri, que, insisto, era a real autoridade xiita do Irã, a República Islâmica “não é uma república e tampouco é islâmica”.

No obituário do New York Times, há algumas recentes declarações de Montazeri que servem para deixar claro que o regime de Teerã, além de não representar o Irã, tampouco pode dizer que seja a imagem real dos xiitas. São apenas uns sequestradores de uma nação e de uma religião

Sobre a milícia Basij – “deixaram o caminho de Deus para seguirem o caminho do demônio”

Sobre o regime –
“um sistema político baseado na força, na opressão,na adulteração dos votos, em prisões com métodos stalinistas, em uma tortura medieval, criando repressão, censura de jornais, interrupção dos meios de comunicação em massa, detenção de membros da sociedade por acusações falsas e as forçando a realizar confissões falsas na prisão, é condenável e ilegítimo”

Sobre a liberdade –
“independência é estar livre da intervenção estrangeira. Liberdade é dar as pessoas o direito de expressar suas opiniões. Não as colocar na prisão por cada protesto que realizarem”

Note que estas declarações não foram dadas pelos editorialistas do Wall Street Journal, por comentaristas da Fox News, por islamofóbicos, por Netanyahu ou os eleitores suíços. Quem disse isso é o aiatolá Montazeri, maior conhecedor da religião xiita no mundo

Tanto que o próprio aiatolá Khamanei emitiu comunicado divulgado pela agência de notícias oficiais do Irã (IRNA) dizendo que o “aiatolá Montazeri dedicou a sua vida para a Revolução Islâmica sob a liderança do imã Khomeini. Seus brilhantes ensinamentos ensinaram muitos teólogos”

obs. Desculpem ter colocado outro post tão rapidamente. Mas não dava para deixar passar a morte do Montazeri em branco. O post anterior ainda está aberto para discussões

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