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Na Síria, quem está certo, Rússia ou EUA?

gustavochacra

20 de julho de 2012 | 09h18

Existem dois conflitos envolvendo a Síria. O primeiro, interno, com uma violência que tende a se agravar ainda mais nos próximos dias depois do atentado que matou o alto escalão da área de segurança do regime de Bashar Assad. O outro, externo, da comunidade internacional, no qual os EUA e seus aliados europeus enfrentam a Rússia e a China no Conselho de Segurança.

Depois de um ano e meio de divisões, apesar de um hiato três meses atrás quando todos apoiaram o plano do ex-secretário geral da ONU e mediador do conflito, Kofi Annan, vimos ontem mais uma vez a comunidade internacional dividida.

Moscou e Pequim usaram pela terceira vez o seu poder de veto por discordar do texto apresentado pelos americanos, franceses, britânicos e alemães. O problema não é a prorrogação da missão de observadores e na implementação da transição política proposta por Annan. Há um consenso nesta parte. A divergência está na inclusão do artigo 41 do capítulo 7 da carta das Nações Unidas, que prevê ameaças de sanções.

De acordo com a resolução, “se as autoridades sírias não cumprirem com o parágrafo 5 (implementando as determinações do plano Annan aprovadas nas resoluções 2042 e 2043, aprovadas por unanimidade neste ano) nos próximos dez dias, então será necessário impor imediatamente medidas do artigo 41 da carta da ONU (sanções)”.

Para a Rússia e a China, este trecho é inaceitável por dois motivos. Primeiro, porque, na avaliação deles, abriria caminho para a adoção, no futuro, do artigo 42, autorizando intervenção militar, como ocorreu no caso da Líbia, mas não do Sudão. Em segundo lugar, porque não inclui a oposição na exigência de cumprimento da resolução.

Os europeus e os EUA afirmam ser hipocrisia este argumento. A embaixadora Susan Rice fez questão de deixar claro não haver qualquer trecho no texto que possa ser interpretado como intervenção militar. Por este motivo, caso o artigo 42, e não o 41, fosse adotado no futura, a China e a Rússia poderiam dar esta desculpa.

Além disso, os americanos e a Europa afirmam que por 90 dias o regime de Assad não cumpriu com as determinações das resoluções 2042 e 2043, que estabeleceram a missão de Annan. Não haveria motivo, segundo eles, para o regime cumprir agora mais uma vez sem as ameaças. Eles, porém, não souberam explicar porque a oposição não foi incluída nas medidas.

Sem saída, havia a chance de aprovação de uma resolução de emergência hoje para prorrogar a missão na Síria e evitar a retirada dos 300 observadores.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

no twitter @gugachacra