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Não há mais chance de paz e estabilidade na Síria. A partir de agora, é o caos

gustavochacra

19 de julho de 2012 | 09h57

O atentado de ontem que matou o ministro da Defesa da Síria, Dawoud Rajha, e o cunhado de Bashar al Assad, Assef Shawkat, não foi apenas uma vitória para os opositores. Mais importante, esta ação fez desmoronar quatro décadas de suposta estabilidade e segurança do regime do Partido Baath.

Muitos sírios, mesmo não gostando de Assad, o achavam a melhor solução para manter a nação estável em uma vizinhança circundada por guerras civis como a do Líbano nos anos 1980 ou a do Iraque na década passada. Em Damasco, a vida seguia normalmente, em paz, com uma segurança imposta pelo regime ditatorial.

Mesmo com os levantes, na capital síria e também em Aleppo havia uma sensação de bolha. Os choques em Homs e Idlib pareciam distantes, sem afetar a vida dos cidadãos. O medo era de que o caos do interior chegasse às grandes cidades. Por mais odioso que fosse, o regime de Assad dava a segurança de que os combates estavam distantes para uma maioria silenciosa.

Os choques em bairros da cidade e acima de tudo os atentados, porém, fizeram ruir o pilar de suposta estabilidade do regime. Agora não é Assad ou o caos. É o caos, apenas, e o regime ditatorial não serve mais para nada. A população de Damasco e Aleppo, especialmente os sunitas, vêem nele um obstáculo para o futuro do país.

O problema é que outros suportes do regime permanecem quase intactos. Assad certamente perde a maioria silenciosa sunita, mas ainda conta com o apoio quase incondicional dos alauítas e dos cristãos. Estes vêem o cenário entre caos com Assad e possível aniquilação de suas comunidades se o regime for deposto.

Antes, a luta deles, assim como a do regime, era para eliminar a oposição. Agora passou a ser de vida ou morte. Usarão todas as suas armas para tentar vencer os opositores, apesar de a tendência do conflito apontar na direção de que a vitória acabará com os inimigos de Assad.

O tempo já passou. Não há mais chance de paz na Síria. Agora será guerra civil e praticamente esfacelamento do Estado no médio prazo, com divisões sectárias. A Síria virou seus vizinhos Iraque e Líbano.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. Também é comentarista do programa Em Pauta, na Globo News. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

no twitter @gugachacra

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