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Nem no Brasil há um escândalo político como o de Nova Jersey

gustavochacra

09 de janeiro de 2014 | 13h36

Imaginem se o governador do Rio, Sergio Cabral, fosse o favorito de seu partido para disputar as eleições presidenciais. Imagine agora se, antes disso, ele precisasse se reeleger governador do Estado. Mas, segundo pesquisas, estivesse mais de 20 pontos percentuais à frente da principal rival. Tarefa fácil, não? Ainda assim, imagine que o governador quisesse o apoio para a sua reeleição mesmo de prefeitos membros do partido opositor.

Agora, imagine que o prefeito de Niterói, integrante do partido opositor, decida apoiar a candidata de seu partido, e não a de Cabral. Para completar, imagine que o alto escalão do governador, com ou sem a conivência dele (isto ainda não sabemos), decida punir o prefeito da cidade fechando duas faixas da ponte Rio-Niterói por quatro dias, causando o maior trânsito da história.

Foi isso o que aconteceu em Nova Jersey. O governador, Chris Christie, era seguramente um dos favoritos para vencer a primária republicana em 2016 e possivelmente a eleição. Agora em novembro, disputou a reeleição para governador e sua vitória era absolutamente certa. Mesmo assim, ele queria o apoio dos prefeitos de seu Estado, incluindo os do Partido Democrata. Muitos, claro, não concordaram. Entre eles o de Fort Lee, Mark Sokolich.

Em setembro, foi determinado que duas faixas da ponte George Washington, a mais movimentada dos EUA e possivelmente do mundo, fosse fechada, causando o maior trânsito da história. A decisão foi da Port Authority, uma agência interestadual de Nova York e Nova Jersey, cujo diretor, David Wildstein, havia sido nomeado por Christie e é seu melhor amigo de infância. O argumento era um estudo sobre o trânsito.

Ontem ficamos sabendo que a ordem para ele fechar veio diretamente de Bridget Anne Kelly, subchefe de gabinete do governador de Nova Jersey. Ela escreveu com todas as letras “Hora para alguns problemas de trânsito em Fort Lee”. O diretor da Port Authority respondeu – “entendi”, e deu a ordem para o fechamento. Em seguida, os dois, ainda em tom de brincadeira, falaram das crianças que perderiam a aula por causa do trânsito – “não tem problema, são filhos de eleitores de Barbara Buono”, a rival de Christie na eleição, que acabou vencida pelo governador.

E foram mais longe, chamando o prefeito de Fort Lee de “pequeno sérvio”, em tom pejorativo. Ele, na realidade, é e origem croata. Seria como chamar uma pessoa, no Rio, de “gauchinho” e ela ser catarinense. Talvez pior – chamar um político armênio de “turquinho”.

O governador nega que soubesse e negou sucessivas vezes, no últimos meses, que membros de seu governo estivessem envolvidos (hoje ele disse que a assessora mentiu para ele). Chegou a brincar dizendo que ele teria colocado os cones, em tom irônico. Mas sua ambição de chegar à Casa Branca entrou em colapso. É algo muito mesquinho o que aconteceu. Centenas de milhares de pessoas foram afetadas, incluindo algumas em ambulância. Além disso, os doadores republicanos certamente irão buscar um nome menos polêmico, como Paul Ryan, Jeb Bush ou algum governador de outro Estado.

Christie sempre chamou a atenção pelo seu jeito autêntico e agressivo. Ele se diferencia dos outros políticos não apenas pela forma de falar, como também por ser obeso – recentemente fez uma cirurgia de estômago. Este seu estilo normal, meio Tony Soprano, sempre atraiu simpatia, especialmente durante o furacão Sandy, quando ele se aproximou de Obama, apesar de o presidente ser do Partido Democrata. Mas, no fim, marcou (ou seu time marcou) um gol contra e não tem mais como virar o jogo. Foi Tony Soprano de verdade. Hillary Clinton certamente vai celebrar.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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