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Nós temos dois passados e dois futuros, não apenas um. Entenda o motivo

gustavochacra

31 de março de 2014 | 15h20

As pessoas são acostumadas a falar em passado, presente e futuro. Mas, na verdade, deveriam existir cinco tempos – 1) passado que não vivemos, 2) passado que vivemos, 3) presente, 4) futuro que viveremos e 5) futuro que não iremos viver.

Quando vivemos o passado, trazemos conosco nossas próprias visões, e não por meio de vias terceirizadas. Alguém que nasceu em 1976, como eu, pode e deve ter uma opinião sobre o que ocorreu em 1964 no Brasil. Mas não podemos dizer com segurança que lado adotaríamos na época. Uma pessoa nascida em 1926, com 38 anos no dia do golpe, por sua vez, viveu aquele período e tem uma visão própria sobre os acontecimentos.

Sem dúvida, para a atual geração, a partir do século 20, é um pouco mais fácil entendermos o passado que não vivemos. Afinal, existe maior documentação dos acontecimentos no mundo (vídeos e fotos de 1964, por exemplo). Isso também se aplica à vida particular. O passado dos avós dos meus avós (meus tataravós) quase não existia, a não ser por poucas cartas e histórias orais.

Já o passado dos meus pais e dos meus avós é branco e preto, estável e com letra de mão. Mas existe. Afinal, posso ver apenas fotos e algumas cartas de quando eles eram jovens, como da minha mãe competindo natação e do casamento dos meus pais. Já a minha avó não pôde ver as fotos do casamento dos avós dela. Meus netos poderão ver meus vídeos no Youtube, minhas fotos no Instagram e meus posts no Facebook.

No futebol, o Palmeiras do passado que não vivi, vencedor, nos tempos do Palestra Itália e da academia, é branco e preto, como o Corinthians. Já o Palmeiras do passado que vivi, da minha infância, é colorido e perdedor, nos seus 17 anos de fila. O do presente, segue na mesma linha. E não tenho ideia como será o futuro que viverei e o que não viverei.

Em 1964 e nos anos seguintes, seria difícil imaginar que uma guerrilheira e um esquerdista exilado, como Dilma e Serra, seriam candidatos à presidente décadas mais tarde.

Já as mudanças climáticas, embora  afetem o mundo hoje e certamente nas próximas décadas, quando espero ainda estar vivo, certamente afetará a humanidade ainda mais, caso nada seja feito, em um século ou mais, em um futuro que não vou viver.

Obviamente, tendemos a nos preocupar mais com o futuro que viveremos mais do que com o futuro que não iremos viver. Se disserem que Nova York e o Rio de Janeiro podem ficar debaixo da água 2120, tendo a ficar menos preocupado do que se me disserem que será em 2020.

E, para completar, hoje é dia de Cesar Chavez, uma importante figura da história americana, quase desconhecida no exterior. Ele foi um dos grandes líderes de direitos civis dos Estados Unidos e está para os hispânicos assim como Martin Luther King para os negros. Se bem que ambos foram fundamentais para todos os americanos, independentemente da origem ou raça. Quando morreu, porém, Chávez era o nome de apenas uma escola – hoje denomina até um porta-aviões. No fim, conseguiu ser celebrado apenas no futuro que não viveu, sendo um desconhecido no futuro que viveu.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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