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Dez motivos para Israel não apoiar a ditadura sanguinária do general Sisi no Egito

gustavochacra

19 de agosto de 2013 | 13h07

Um dos maiores erros de Israel é defender o sanguinário regime egípcio do general Sisi, que já matou mais de mil em massacres praticamente inéditos até mesmo para os padrões do Oriente Médio em tempos de paz – antes da Guerra Civil, as forças de Bashar al Assad jamais provocaram tantas mortes.

1. Não há estabilidade no Sinai com ou sem o General Sisi –  os militares não garantem estabilidade nenhuma no Sinai. O cenário, inclusive, se deteriorou depois da chegada do general Sisi ao poder. A tendência é haver uma maior radicalização de facções jihadistas na região. Basta ver o massacre de 20 policiais hoje. Ocorreram com Sisi no poder. Além disso, com os militares de Mubarak no comando, tivemos atentados alvejando israelenses no Sinai em 2004, 2005 e 2006

2. Irmandade, e não militares, evitaram outra Guerra em Gaza – Na Faixa de Gaza, a Irmandade Muçulmana e o presidente deposto Mohammad Morsy foram melhores para Israel do que Hosni Mubarak. Por exemplo, no ano passado, negociaram uma trégua entre israelenses e o Hamas, enquanto o ex-ditador egípcio, em 2008, foi incapaz de alcançar um acordo. Mais importante, o Hamas havia moderado o tom e estava mais propenso ao diálogo por meio da Irmandade.

3. Militares sabotaram Israel várias vezes –  O regime de Mubarak, do qual o de Sisi é derivado, nunca foi favorável a Israel. Apenas cumpria o mínimo possível os acordos de paz. Inclusive, Mubarak vinha se recusando a visitar Israel e uma série de vezes entrou em choque com os israelenses. Verdade, no campo militar havia cooperação. Mas o mesmo ocorria na administração da Irmandade.

4. Militares egípcios, diferentemente dos sírios, nunca defenderam os cristãos – O regime de Mubarak, assim como o de Sisi agora, nunca defendeu os cristãos. Não dá para comparar com Assad ou Saddam Hussein, que, com seus enormes defeitos, certamente eram protetores de cristãos. Durante os anos Mubarak, os cristãos eram tratados como cidadãos de segunda classe, com muitos relegados a lixões no Cairo. Vilas cristãs no Alto Egito sempre foram deixadas de lado em programas de desenvolvimento. O regime do general Sisi, agora, não faz nada para proteger Igrejas que vem sendo queimadas. Seu objetivo é pintar a Irmandade de cristãfóbica

5. Israel deveria apoiar democracias, não ditaduras sanguinárias – o regime do general Sisi é uma ditadura sanguinária. Israel, no Oriente Médio, sempre se destacou por ser uma das raras democracias – a outra é o Líbano, mas esta possui caráter sectário (Tunísia ainda é embrionária, assim como Yemen e Líbia). Simplesmente, os israelenses passariam a ser hipócritas ao defenderem ditadores depois de experimentos democráticos.

6 – Irmandade não tem nada a ver com regime do Irã – diferentemente do que dizem, não havia o menor risco de o Egito virar o Irã. Primeiro, óbvio, o regime iraniano é xiita. A Irmandade, sunita. Seria como dizer que evangélicos pretendam implementar um Estado católico. Sunitas não possuem clero, como os xiitas. Não há aiatolás e muito menos um com o carisma do aiatolá Khomeini. Além disso, em nenhum momento, a Irmandade se demonstrou anti-EUA, enquanto o regime iraniano, até hoje, tem como bandeira o anti-americanismo.

Aliás, os regimes ultra-religiosos do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita, onde existe um Apartheid contra as mulheres e é bem mais radical do que o Irã, apoiam o regime do general Sisi, contra a Irmandade. Se houvesse uma “conspiração islâmica”, os sauditas apoiariam a Irmandade, não a ditadura secular de Sisi. Aliás, a mais secular Turquia (Erdogan, com todos os seus defeitos, é infinitamente mais liberal do que os monarcas sauditas) é aliada da Irmandade.

7. Até republicanos como McCain são contra a ditadura de Sisi –  Os senadores republicanos John McCain e Lindsay Graham, principais vozes em política externa do partido, estão irritados com a violência e a falta de respeito do general Sisi. Tentaram negociar um acordo entre os militares e a Irmandade. Líderes da organização seriam soltos em troca do fim dos protestos. As autoridades do regime egípcio rejeitaram.

8. Regimes laicos, como de Nasser, foram os maiores inimigos de Israel –  Sem dúvida, apenas para ficar claro, a Irmandade fez uma péssima administração e não respeitou instituições democráticas. Isso não significa que o regime sanguinário do general Sisi deva ser apoiado. Israel, simplesmente, não deveria se envolver. Sua preocupação precisa ser o Sinai. Diálogo na área de segurança deve ser mantido e os EUA devem ser usados para pressionar o regime de Sisi a manter a estabilidade no local.  Afinal, ser conservador e religioso não significa ser inimigo. Os maiores aliados dos EUA não mundo árabe são a Arábia Saudita, ultra-radical, e os maiores adversários são a Síria, ultra-secular. O mesmo se aplica a Israel. Ditadores laicos nem sempre são os maiores aliados. Aliás, o maior inimigo da história de Israel foi Nasser, um general laico egípcio.

9. Irmandade nunca atacou Israel – Morsy deu declarações anti-semitas no passado. Mas a Irmandade nunca cometeu atentados contra Israel. Nas últimas décadas e mesmo no poder, pregava a paz. E há generais anti-semitas, tenham certeza. Não existe relação de grau de religiosidade no Egito com anti-semitismo. No Líbano, por exemplo, as declarações mais anti-semitas que ouvi partiram da boca de cristãos, não de muçulmanos.

10. Egito pode virar uma Argélia dos anos 1990, na fronteira com Israel – A situação no Egito lembra muito a da Argélia nos anos 1990. Escreverei em outro post

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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