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NY Times chama de vergonhosa posição do Brasil na Síria, mas ignora a dos EUA em Bahrain

gustavochacra

01 Setembro 2011 | 12h10

 no twitter @gugachacra

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“Assad tem poucos e poderosos protetores. A Rússia e a China, ao lado da Índia, Brasil e África do Sul, estão bloqueando uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas que poderia impor amplas sanções internacionais ao regime de Damasco. A cumplicidade deles é vergonhosa”.

A frase está no editorial “Isolando Assad”, publicado hoje no New York Times, defendendo mais atitudes da comunidade internacional contra o líder sírio. Desta vez, porém, o jornal americano está equivocado.

Cubro o Conselho de Segurança e há meses tenho acompanhado a posição brasileira e dos outros países em relação à Síria. O cenário mudou nas últimas semanas. Hoje, no órgão decisório máximo da ONU, existem duas propostas de resolução em negociação. Uma dos europeus, prevendo sanções, e outra, da Rússia, apenas condenando a violência na Síria, com um texto próximo da declaração presidencial aprovada há um mês.

O Brasil não rejeitou nenhuma das propostas. Inclusive, chegou a participar das negociações do texto dos europeus. Mas uma posição será adotada apenas quando definirem qual será a resolução a ser votada no conselho.

Para completar, os brasileiros não possuem poder de veto. Isto é, uma resolução pode ser aprovada tranquilamente sem o apoio do Brasil. Isso aconteceu no ano passado com as sanções ao Irã e também neste ano com a aprovação da 1.973 estabelecendo uma zona de exclusão aérea na Líbia.

Aliás, esta resolução é o motivo de Rússia, China, Brasil, Alemanha, Índia e África do Sul terem um pé atrás. A OTAN desrespeitou o texto da ONU e bombardeou toda a Líbia não para impedir um massacre dos rebeldes, como era o objetivo do texto, mas para derrubar Muamar Kadafi. Os próprios diplomatas americanos admitem, não publicamente, claro, que a ação não estava em acordo com as Nações Unidas.

Para completar, existe a questão dos dois pesos e duas medidas. A Rússia tem uma base militar para a sua Marinha em Latakia, na Síria. Logo, a aliança com Assad é interessante para Moscou. Os EUA mantêm a Quinta Frota de sua Marinha em Bahrain. Por este motivo, cala-se diante da enorme repressão contra os opositores levada adiante pela monarquia Al Khalifa, e seu Estado de apartheid contra os xiitas, contando com o apoio das Forças Armadas sauditas.

Ontem, no mesmo New York Times, há uma matéria desta violenta repressão contra a oposição de Bahrein, incluindo a história de um menino de 14 anos morto e trucidado pelas forças do regime. Infelizmente, a vida de quem é de Bahrain não tem tanta importância e o assunto sequer é tocado no Conselho de Segurança. Os EUA jamais permitiriam que uma resolução condenando a monarquia amiga.

A comunidade internacional, e especialmente a árabe, tampouco liga. Prefere condenar os EUA apenas quando estes protegem Israel. Mas não se importa quando a monarquia Al Khalifa trata os xiitas e opositores de seu país como animais de segunda classe.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios