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O apoio de líderes cristãos libaneses a Assad, apesar dos crimes contra a humanidade

gustavochacra

15 de março de 2012 | 12h44

no twitter @gugachacra

Como os libaneses cristãos vêem a crise Síria? Bom, o Patriarca Cristão Maronita, Beshara Rai, afirma que o regime de Bashar al Assad é o mais próximo da democracia na região. De acordo com a maior autoridade cristã libanesa, os seguidores desta religião correm o risco de desaparecer se o líder sírio for deposto.

“Todos os regimes do mundo árabe têm o islã como religião oficial, menos a Síria (e o Líbano). Ele (o regime de Assad) se destaca por dizer que não é um Estado islâmico. O que mais se aproxima de uma democracia no mundo árabe é a Síria”, disse o patriarca.

O presidente Michel Sleiman, também cristão, conforme mandam as leis libanesas, segue na mesma linha e apóia Assad. O mesmo se aplica a Michel Aoun, principal líder político cristão em Beirute. Ironicamente, ele ficou 15 anos no exílio por sua oposição a Damasco, mas formou uma aliança com os sírios e o Hezbollah depois da retirada das tropas sírias do Líbano em 2005.

Ao mesmo tempo, Samir Gaegea, que representa uma parcela importante dos cristãos libaneses, lamentou o posicionamento do Patriarca, do presidente e, como não poderia deixar de ser, de seu inimigo Aoun. O antigo senhor de guerra, que passou uma década em um calabouço em Beirute, afirma que Damasco é responsável pelo enfraquecimento dos cristãos libaneses. Segundo ele, o regime sírio, na época de Hafez al Assad, teria matado dois presidentes (ambos cristãos), Bashir Gemayel e Rene Mawad.

Entre a população cristã, pelo que venho conversando, o posicionamento depende de qual grupo político a pessoa segue. Os simpatizantes da 8 de Março, como é chamada a coalizão de Aoun com o Hezbollah, tendem a ser pró-Assad. Já os membros da 14 de Março, do sunita Saad Hariri, mas com a presença de cristãos como Gaegea, são contra o regime sírio.

No geral, os libaneses cristãos não se esquecem das atrocidades cometidas por Assad no Líbano ao longo das quase três décadas de ocupação. Ao mesmo tempo, especialmente entre os cristãos ortodoxos e armênios, existe uma solidariedade com os cristãos sírios, que são majoritariamente a favor do regime. Além disso, sempre existiram grupos cristãos, como o Marada, dos Frangieh, que eram aliados de Damasco.

Vale lembrar que o Líbano é o país do mundo com a maior proporção de cristãos árabes – cerca de 40%. O presidente, metade do Parlamento, do Ministério e o chefe das Forças Armadas são obrigatoriamente cristãos. Não existe lugar no Oriente Médio (e isso inclui Israel, óbvio) onde os cristãos tenham mais liberdade e mais poder do que em Beirute.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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