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O atentado em Damasco e a culpa do Ocidente no fim dos cristãos árabes

gustavochacra

06 de janeiro de 2012 | 11h36

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Escrevi no mês passado que o maior risco para Damasco era se transformar em sinônimo de destruição nos próximos meses ou anos como Beirute dos anos 1980 e Bagdá da última década.  Metrópoles cospomopolitas e multireligiosas que se converteram em campos de batalhas sectárias.

Nesta sexta, ocorreu o segundo atentado terrorista na cidade em menos de 30 dias. Entre os defensores da deposição de Bashar al Assad existe muita gente séria, genuinamente democrática. Porém há uma parcela armada e muitas vezes anti-cristã e anti-alauíta (uma vertente moderada do islã) ligada a correntes da Irmandade Muçulmana, que prega uma linha radical do braço sunita do islamismo.

A comunidade internacional pode brincar, com uma bizarra Liga Árabe enviando uma missão humanitária comandada por um general que liderou o genocídio de Darfur no Sudão. Os Estados Unidos pregam a democracia na Síria, mas ignoram os massacres em Bahrain e na Arábia Saudita, onde as mulheres são tratadas como animais, sendo infinitamente mais reprimidas do que no Irã. A França chama corretamente Assad de ditador, mas não se importa com a ditadura do rei Abdullah da Jordânia. A Turquia repudia as ações do regime em Homs, mas extermina os separatistas curdos em seu território.

Mas esta brincadeira pode ter um preço caro para os sírios, especialmente as minorias cristãs, alauítas e os refugiados iraquianos (muitos cristãos) e palestinos. O Ocidente reclama tanto do fim dos cristãos do mundo árabe, mas se une aos sauditas e aos radicais sunitas da linha wahabbita justamente para acabar com eles. Estes são, aliás, justamente os que estiveram por trás do 11 de Setembro, da Al Qaeda, do Taleban (15 dos 19 terroristas eram sauditas, assim como Osama bin Laden)

Já escrevi de Beirute, de Jerusalém, de Belém e de Damasco sobre o fim dos cristãos árabes. Falei com cristãos e autoridades cristãs palestinas, libanesas, sírias e iraquianas. Todos repudiam a forma como o Ocidente lida com eles. Centenas de milhares de cristãos caldeus do Iraque foram expulsos depois da queda de Saddam. Para onde eles foram? Para os EUA, quase nenhum. 99% estão na Síria.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

 

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