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O cessar-fogo e a bela história do árabe e da israelense

gustavochacra

21 de novembro de 2012 | 20h18

Acabou de sair o cessar-fogo. E li este texto escrito pelo meu irmão, Léo Chacra. Fala como se o conflito fosse entre Israel e o Líbano. Mas se encaixa bem para Israel e Gaza. Vale a pena ler para entender mais ou menos o que significa uma trégua. Em tempo, a história não é verídica, mas poderia ser

Conheceram-se no metro de Paris. Ele viu aquela menina linda e sozinha, que parecia perdida folheando um guia turístico. Ela percebeu aquele moço atraente a observando. Ele se aproximou e falou algo em árabe. Ela respondeu em inglês que seu árabe era ruim. Ele, como todo libanês sempre curioso, perguntou de onde ela era, pois não era fluente em árabe, mas entendia um pouco a língua.

Ela, como toda menina judia que fica sem jeito de responder por medo da reação no exterior, disse meio com receio: “Israelense”. Ele por um segundo ficou sério. Mas se acalmou e disse que era libanês. Depois sorriram juntos. E ele continuou curioso. Ela parecia uma libanesa típica, pensava. Os olhos com os longos cílios, e aquele olhar meio perdido que ao mesmo tempo encara fundo o interlocutor, o nariz, o tom da pele. “Mas você é árabe-israelense?”, perguntou  mais uma vez, pensando ser alguma nativa de Nazaré ou Jaffa. “Na verdade, meus pais são da sua terra”. disse a israelense. “Libaneses?”, afirmou ele, com surpresa. “Sim”, respondeu a menina.

 

Desceram juntos na estação de Saint Michel e três horas depois bebiam na margem do Rio Sena um vinho e se beijavam em frente à catedral de Notre Dame. Ele mulçumano e ela judia. No dia seguinte ele a convidou para jantar num chinês. Ela aceitou e no terceiro dia estavam namorando. Ela acabara de chegar de Londres. Ele conhecia Paris desde criança. Ela estudava artes plásticas e ele letras.
Duas semanas depois já moravam juntos. Ela quis saber como era o Líbano. Ele contou histórias parecidas com as da avó dela. As praias de Beirute com as montanhas cobertas de neve atrás. Os cedros que há milênios viram os fenícios saírem com seus barcos. Os macedônicos conquistarem Byblus. Os Romanos construírem Balbeck. Saladim recuar dos cruzados. Depois os bizantinos, os islâmicos.
 
Ela chorou ao ouvir do vale do Becka e seus vinhedos. Sua avó querida tinha tanta saudade daquela terra. Um dia quando ela chegou em casa, a bandeira de Israel que ela guardava na mala estava pendurada na parede. Ela sabia o quanto aquele gesto era uma prova de amor. Mas ela retirou a bandeira e colocou um pôster do Matisse no lugar. Bem em cima do piano dele.
 
“Aqui nesta casa somos eu e você”, ela disse. Chegaram à conclusão de que as avós cozinhavam a mesma comida. E ele perguntou ao pai por telefone se o pai conhecia a família dela. Sim, a irmã do pai, sua tia fora amiga da tia dela quando as duas eram garotas em Beirute. O pai, apesar de liberal, não gostou do filho se envolver com ela.
 
Ele lia livros budistas. E ela a biografia de São Francisco de Assis. Um dia ele foi a uma festa, ela ficou em casa, precisava estudar. Um italiano nessa noite perguntou pela sua maravilhosa irmã. “Mas eu não tenho irmã”, disse o libanês. O italiano esperto como todo italiano logo percebeu a gafe e se retirou.
Realmente eram muito parecidos ele e ela. Os parisienses mais sensíveis acreditavam tratar-se, o casal, de libaneses cristãos. Ou no máximo irmãos Argentinos. Foi o melhor ano da vida dos dois. Iriam passar algumas semanas com suas famílias e retornariam para casa, em Paris. Para se casarem.
 
Um acontecimento imprevisível fez com que ela fosse chamada ao norte de Israel para ajudar seu país. Conversaram pelo skype. Ela estava a menos de 200 quilômetros em Beirute. “Feliz ano novo cristão ela disse.” “Feliz ano novo cristão”, ele respondeu. Depois riram.
Ela pediu que ele tomasse cuidado e evitasse passar por qualquer ponte. Ele disse que o seu bairro era mais seguro que a Europa. Ela colocou o uniforme por cima da sua camiseta Gap. E tomou seu café do Starbucks. Ele colocou o cachecol da Zara que ela lhe dera. Depois com a estrela de David dela no bolso para protegê-lo seguiu no Audi da família para uma balada em Beirute.
 
Ela entrou no seu turno. Era responsável como muitas meninas pelo rádio do exercito. Ele estava na noite de Beirute. Considerada a melhor noite do mundo, claro quando se tem dinheiro. Na pista e já bêbado sentiu sua perna queimando. Com o som da pista não ouvira o barulho dos caças. Depois não sentiu mais nada.
Ela só ouviu a sirene antimíssil e depois não ouviu mais nada, não teve tempo de correr.
Ela tinha vinte e dois e ele vinte e quatro. (LÉO CHACRA)

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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