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O contexto do ataque de Israel à Síria

gustavochacra

30 de janeiro de 2013 | 18h34

O ataque israelense contra um alvo na fronteira do território sírio com o libanês e outra contra uma instalação nos arredores de Damasco deixam claro que, independentemente do resultado do conflito na Síria, este tende a ser negativo para Israel.

Caso Bashar al Assad seja deposto, existem dois riscos claros para os israelenses. Primeiro, o regime, vendo a derrocada, poderia transferir armamentos convencionais ou mesmo químicos para o Hezbollah, seu principal aliado na região. O grupo libanês, que já possui a mais poderosa guerrilha do mundo e conseguiu bater de frente com Israel em 2006, passaria a ter a capacidade de realizar enormes estragos em Tel Aviv e Haifa, matando milhares de pessoas.

Em segundo lugar, sem Assad, o caos tende a imperar por um período na Síria, já que as facções opositoras travam batalhas entre si na já descrita “guerra civil dentro da guerra civil”. Os grupos mais poderosos são ligados à Al Qaeda e odeiam tão ou mais Israel do que o Hezbollah e o atual regime de Damasco. Com a diferença de não serem atores racionais no que diz respeito aos israelenses, como o grupo libanês e o atual governo sírio. Vale lembrar que, desde a chegada dos Assad ao poder 40 anos atrás, a fronteira mais segura de Israel é com a Síria.

Por último, existe a possibilidade de Assad permanecer no poder, como já aconteceu com outros ditadores na região que enfrentaram levantes. Não podemos esquecer que os militares argelinos também enfrentaram uma revolta popular de viés islâmico nos anos 1990 e, como o regime sírio, perderam por anos o controle de partes do país. Depois da morte de mais de 150 mil pessoas, estabilizaram o país. O mesmo aconteceu com Saddam Hussein depois da Guerra Golfo, sendo deposto apenas doze anos mais tarde com a invasão americana.

Neste caso, com Assad vencedor, Israel talvez tivesse o menos grave dos cenários em relação às armas. Mas dois de seus maiores inimigos, o Irã e o Hezbollah, se sentiriam fortalecidos com a vitória na Síria e mais uma vez direcionariam suas forças contra os israelenses.

Não há muito o que os israelenses possam fazer. O ideal, porém, seria manter a “negligência benigna”, aguardando os acontecimentos na Síria se consolidarem para tomar uma decisão. Ao agir como hoje, corre o risco de apenas jogar mais fogo no incêndio, com o enorme risco de se alastrar para o Líbano.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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