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O estranho atentado em Bagdá e a volta da violência no Iraque, depois do surge

gustavochacra

27 de outubro de 2009 | 08h12

O Iraque tem sido usado como exemplo de sucesso a ser repetido na estratégia dos Estados Unidos para o Afeganistão. Há quase três anos, o então presidente, George W. Bush, em vez de remover as tropas do território iraquiano, ordenou o aumento do contingente, seguindo o conselho do general David Petraeus. Além disso, os americanos fizeram alianças com líderes tribais sunitas que se voltaram contra grupos ligados à rede terrorista Al Qaeda. Ao mesmo tempo, facções xiitas decretaram um cessar-fogo.

O plano deu certo e a violência diminuiu. Em meados deste ano, as forças americanas se retiraram para foras dos centros urbanos, deixando a segurança nas mãos dos iraquianos. Em agosto de 2010, começa a remoção das tropas para fora do país. O problema é que o atentado de ontem e outros em agosto demonstraram que o Iraque não está tão seguro como se imaginava e que talvez a estratégia não seja nada mais que uma tática momentânea cuja validade expirou. Para complicar, a dimensão dos atentados é bem maior.

No de ontem, foram utilizados uma van e um caminhão tanque. Pelas leis iraquianas, é proibido caminhões circulares por Bagdá durante o dia sem autorização. Até atingir os prédios governamentais, o veículo ultrapassou uma série de checkpoints sem ser bloqueado. O número de mortos, estimado em 155, e os alvos – Ministérios das Finanças, Relações Exteriores e Serviços Públicos – deixam claro o profissionalismo dos responsáveis.

A questão para os analistas agora é se o índice de violência no Iraque retornará a patamares de 2006, no auge da guerra. Stephen Walt, professor da Universidade Harvard, escreveu em seu blog no site da revista Foreign Policy que o surge teve um sucesso apenas parcial. Segundo o especialista, “a estratégia principal do surge era a reconciliação política entre os grupos iraquianos” e os ataques de ontem “são uma indicação brutal de que este objetivo não foi alcançado”.

As eleições iraquianas estão previstas para ocorrer em janeiro, mas, conforme escreveu o prêmio Pulitzer Anthony Shadid, correspondente do Washington Post em Bagdá, “sequer foram estabelecidas as regras da votação” até agora. As coalizões também enfrentam dificuldades para superar as linhas sectárias. O governo dos EUA, por meio do presidente, Barack Obama, e da secretária de Estado, Hillary Clinton, demonstra apoio ao premiê Nuri al Maliki. Especula-se que as ações visam enfraquecer o primeiro-ministro das eleições de janeiro.

No briefing de ontem no Departamento de Estado, um jornalista questionou o porta-voz Ian Kelly sobre o envolvimento sírio, uma vez que a operação de domingo lembrou carros-bomba explodidos em Beirute, em ataques atribuídos a Damasco, que sempre negou. Os EUA, que tem buscado se aproximar da Síria, preferem não comentar. Mas apoiaram uma investigação sobre envolvimento de forças externas no ataque terrorista. Será que o Iraque está se tornando um novo Líbano?

* Análise que escrevi para a edição impressa do Estado de S. Paulo

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