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Para Obama, Irã é União Soviética; para Israel, Alemanha nazista

gustavochacra

16 de fevereiro de 2015 | 12h39

Há uma disputa entre o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos EUA, Barack Obama, envolvendo as negociações nucleares com o Irã – que englobam não apenas os americanos e iranianos, mas também a França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China. Não entrarei na questão do discurso de Netanyahu em Washington e nem nas negociações neste post. Mas quero explicar o motivo desta disputa entre os dois governos, embora de forma alguma entre os dois países, que possuem laços históricos.

Sei que usar a Segunda Guerra não é correto. Mas Israel vê o Irã como equivalente da Alemanha nazista, guardadas as enormes proporções, nos dias de hoje, ameaçando toda uma região. Os EUA, porém, veem o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, e a Al Qaeda como os equivalentes da Alemanha nazista. Para derrota-los, seria necessário uma aliança com o Irã, que seria uma espécie de equivalente da União Soviética na Segunda Guerra – embora rival, indispensável para derrotar os nazistas.

Obama observa a região e, corretamente, vê que os iranianos, ao lado de Bashar al Assad, do governo do Iraque, das milícias xiitas iraquianas (vale um post sobre elas), de milícias shabiha cristãs pró-Assad e alauítas sírias, dos curdos e do Hezbollah, são os que mais lutam contra o terrorismo do ISIS e da Al Qaeda. Exatamente como a União Soviética era quem mais lutava contra a Alemanha nazista.

O resultado da Segunda Guerra foi uma vitória dos aliados. E o fortalecimento da União Soviética, expandindo a sua zona de influência. O resultado da Guerra contra o ISIS e a Al Qaeda pode ser também um fortalecimento do Irã, expandindo a sua zona de influência no Oriente Médio. Neste sentido, Netanyahu se engana ao ver o regime de Teerã como a Alemanha nazista. Mas talvez não estivesse errado se alertasse para os riscos de o Irã ser a União Soviética do Oriente Médio.

Noto, porém, que a postura dura de Netanyahu ajuda na consolidação de um acordo e, certa vez, até cogitei se não se trata de algo coordenado entre EUA e Israel. Afinal, com a oposição do premiê de Israel, fica mais fácil para o presidente Rouhani vender o acordo para a linha dura do regime em Teerã. Mas talvez leve a uma deterioração ainda maior nas relações com o governo Obama e com a parte mais liberal da comunidade judaica americana.

É um tema para se pensar, pois dominará as discussões. Como alguns amigos meus sabem, não sou fã de escrever sobre Israel e Palestina, um tema hoje dominado por antissemitas de um lado e islamofóbicos de outro (embora os cristãos árabes sejam defensores árduos da Palestina). Afinal, as discussões não terminam e não terminarão nunca, já que grande parte das pessoas acredita em informações erradas divulgadas por campanhas de PR dos dois lados. E, por algum motivo alheio à minha imaginação, Israel, uma nação construída com um ideal socialista e forte influência de sindicatos, passou a ser associado à extrema direita no Brasil; e a Palestina, onde impera o livre-mercado do suq, à esquerda.

Imploro para que respeitem as regras do blog

Obs. Escrevi ontem sobre a decapitação de 21 cristãos egípcios na Líbia

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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