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O Líbano é o último bastião cosmopolita do mundo árabe? Até quando?

gustavochacra

27 de maio de 2015 | 10h41

Relatos de Beirute – Parte 1

O mundo árabe, ou o Levante como um todo, incluindo a Turquia, já foi a região mais cosmopolita do mundo. Cidades como Alexandria, Smyrna (hoje, Ismir), Istambul, Aleppo e Beirute eram as únicas onde muçulmanos, cristãos e judeus podiam conviver harmonicamente para os padrões da época, quando as minorias religiosas eram perseguidas e mortas na Europa.

Este mundo praticamente acabou. Infelizmente, o Levante do comércio, das caravanas, das navegações, das igrejas, das mesquitas e das sinagogas pode desaparecer. A Alexandria de 1920 é um berço do radicalismo hoje. Aleppo ficou destruída pela guerra e pode demorar décadas para se reerguer. O Cairo não para decair. As grandes cidades do Golfo até são modernas, mas, ao mesmo tempo, sem democracia, conservadoras e sem um décimo da liberdade que imperava no Mediterrâneo Oriental de décadas atrás.

Os terroristas do ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh, avançam na Síria e no Iraque. A Al Qaeda e outras milícias, agora apoiadas pelo regime da Arábia Saudita, idem. Por incrível que pareça, os também radicais e extremistas do Hezbollah e do Irã são os principais escudos contra estas entidades terroristas. Isso por si só demonstra a que ponto chegou esta região – não é uma democracia, mas um regime radical como o de Teerã e uma milícia como o Hezbollah que podem conter o avanço dos monstros do ISIS.

O último bastião de liberdade no mundo árabe do Levante é o Líbano – a Tunísia fica no Norte da África. Sunitas, xiitas, drusos e cristãos tentam se equilibrar. Algumas mulheres cobrem a cabeça com o véu. E são respeitadas. Outras mulheres ficam de bíquini na praia. E são respeitadas. Um padre ortodoxo pode tranquilamente caminhar em uma área sunita. Um xeque não será atacado em uma área mais cristã. Na cidade há diretores de cinema, artistas, executivos, ótimos hospitais e ótimas universidades.

Beirute, de onde retornei ontem, ainda é uma cidade livre. Uma metrópole na qual diferentes religiões ainda coexistem. Foi o único lugar do mundo árabe onde a população judaica cresceu depois da criação de Israel. Verdade, a partir dos anos 1960 e especialmente em 1975, com a Guerra Civil, a quase totalidade partiu. A sinagoga Magen David, destruída em um bombardeio de Israel nos anos 1980, foi reconstruída, mas não reúne mais uma congregação. E, embora ainda liberal, a Beirute de hoje não tem mais a magia dos anos 1950 e 60, como uma senhora libanesa-brasileira residente há décadas no Líbano me descreveu em um restaurante de Ashrafyeh, um elegante bairro cristão da capital libanesa.

Mas o Líbano, com um quarto de sua população composta por refugiados, em um território do tamanho do Sergipe, com um inimigo com armas nucleares ao sul (Israel) e uma nação em guerra civil ao norte e leste, conseguirá sobreviver até quando? Hoje, o Líbano é uma ilha. E sua única saída, ironicamente, é o Mediterrâneo, responsável, junto com o Monte Líbano e o fértil Vale do Beqaa, por tornar esta nação única no Oriente Médio – a única onde o fim de semana é sábado e domingo e onde, ainda que cada vez em uma escala menor, a identidade cristã, em sincronia com a islâmica, ainda impera.

O meu sonho seria ver o restante do mundo árabe como o Líbano, uma nação democrata e com liberdade religiosa, e não o Líbano como o restante do mundo árabe, com suas ditaduras e monarquias absolutistas – de novo, lembrando que a Tunísia também é uma democracia e o Kuwait possui liberdades democráticas. Mas, sendo realista, a maior parte da região vive os seus piores momentos.

Escreverei mais sobre o Líbano nos próximos dias.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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