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O lobby pró-Israel em Washington e a visita de Netanyahu a Obama

gustavochacra

18 de maio de 2009 | 10h44

O primeiro-ministro israelense, Binyamin “Bibi” Netanyahu, está nos EUA em sua primeira visita oficial ao presidente americano, Barack Obama. Nos bastidores da visita está a Aipac (sigla em inglês para Comitê de Assuntos Públicos Israelense e Americano).

A organização, conhecida também como o “lobby pró-Israel” em Washington, recebeu, durante a campanha eleitoral, os principais candidatos à Casa Branca – entre eles Obama – em uma clara demonstração de sua força política. Em seu site (www.aipac.org), o grupo afirma: “Por mais de meio século, trabalhamos para ajudar a fazer Israel mais seguro ao garantir que o apoio americano continue forte.”

Com uma agenda conservadora, a Aipac, em sintonia com Netanyahu, está dando prioridade à ameaça iraniana, alertando para a necessidade de endurecer mais as sanções contra o Irã. Segundo analistas, Bibi se esforçará para colocar a ameaça do Irã a Israel no topo da agenda do encontro com Obama para desviar o foco da questão palestina.

Os três artigos mais recentes divulgados pela Aipac são bem claros ao afirmar que os EUA devem intensificar as sanções contra o regime iraniano no campo político, econômico e diplomático, sem mencionar o lado militar.

Críticos

Sobre uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos, a Aipac evita dar detalhes. Tampouco afirma se um Estado palestino deve ou não ser criado, insistindo que a prioridade deve ser a segurança de Israel. Críticos da Aipac, como os acadêmicos Stephen Walt e John Mearsheimer, autores do polêmico livro O Lobby de Israel , afirmam que a organização, apor meio de suas pressões, leva o governo americano a adotar posições contrárias aos interesses dos EUA para defender Israel.

Em entrevista ao Estado por telefone de seu escritório na Universidade de Chicago, Mearsheimer diz que é interesse dos EUA permitir a criação de um Estado palestino. “O problema é que Obama terá de lidar com o lobby pró-Israel e não creio que seja duro o suficiente para lutar contra seus interesses”, disse.

Até agora, segundo Mearsheimer, Obama foi fraco por manter silêncio durante os bombardeios israelenses na Faixa de Gaza e não se esforçar para manter Charles Freeman, diplomata e crítico de Israel, em um alto posto do serviço de inteligência americano.

Para superar este obstáculo, segundo o cientista político, movimentos judaicos mais moderados nos EUA, como o Israeli Policy Forum (mais informações nesta página), podem ajudar Obama. “Mas eles precisam agir com força e rapidamente”, disse o analista.

Em recente artigo, escrito para a publicação “The American Conservative”, o cientista político de Chicago atualiza alguns dos pontos do artigo de três anos atrás. A tese de Mearsheimer é que a relação dos EUA com Israel não deve ser diferente da existente com outros aliados americanos, como a Grã-Bretanha e a França. “Na prática, isso significa apoiar Israel quando suas ações forem consistentes com os interesses americanos e tomar distância quando não forem”, escreveu o autor, criticado por alguns acadêmicos como leviano nas suas críticas ao lobby pró-Israel, como Alan Dershowitz, de Harvard, Mearsheimer tem o respeito de muitos outros, como os historiadores Rashid Khalidi, de Columbia, e Tony Judt, da Universidade de Nova York.

Para Mearsheimer, a aliança incondicional também prejudica Israel. “Na guerra contra o Hezbollah, no Líbano em 2006, Washington apoiou Israel enquanto o país adotava uma estratégia até o limite que foi, como muitos israelenses hoje reconhecem, equivocada. Os EUA teriam sido melhores amigos se tivessem pressionado Israel a dar uma resposta mais inteligente ao Hezbollah e concordar com a trégua rapidamente”, disse.

Os moderados em defesa de Israel

Algumas entidades judaicas americanas também discordam do posicionamento da Aipac. Para grupos pró-Israel com uma posição mais pacifista, como a J-Street e o Israeli Policy Forum (IPF), as ações da Aipac, na verdade, prejudicam os interesses de Israel ao adotar posições contra a paz que vem transformando, nos últimos tempos, os israelenses nos vilões do Oriente Médio.

Em anúncio de uma página publicado no New York Times de sexta-feira, o IPF defendeu a solução de dois Estados para a questão palestina e o fim da construção de assentamentos na Cisjordânia – tema ainda tabu para a Aipac.

O diretor executivo da IFP, Nick Bunzl, defendeu, em entrevista ao Estado, que “Jerusalém poderia ser a capital dos dois Estados. A parte oriental da cidade não é judaica, mas árabe”. Questionado sobre o por que de, no restante do mundo, os judeus americanos serem considerados conservadores na questão do Oriente Médio e representados pela Aipac, Bunzl disse que essa imagem é equivocada.

“A Aipac acredita que é a voz (dos judeus americanos). Mas não há apenas uma voz na comunidade judaica. Há múltiplas opiniões”, afirmou. Segundo Bunzl, “depois de 1967, Israel se tornou uma potência militar, tecnológica é econômica. Não é mais a mesma coisa que após o Holocausto”, afirmou.

Para o diretor da organização pró-Israel, grupos judaicos como a IFP e a J-Street (composta por jovens judeus americanos) vêm tentando mostrar ao Congresso e à Casa Branca que a população judaica americana não comparte de muitos dos valores conservadores da Aipac em relação ao conflito no Oriente Médio. Bunzl ressalta que “78% dos americanos votaram em Obama”, apesar de John McCain ter posições bem próximas da Aipac.

Bunzl diz que a IFP deixará de existir “no dia em que houver um acordo para criação de um Estado palestino”, pois o objetivo do grupo terá sido alcançado.

O cenário atual contrasta com os últimos oito anos de apoio incondicional de George W. Bush a Israel. Em poucos momentos nos 61 anos do Estado judaico houve discordância entre o governo israelense e o americano. Quando Israel foi criado, em 1948, o presidente dos EUA Harry Truman demorou apenas 11 minutos para reconhecer o novo país. As duas nações, neste período, estreitaram os laços econômicos, militares, diplomáticos e culturais.

Israel, de acordo com a Embaixada em Washington, possui mais companhias listadas na Nasdaq (bolsa de valores eletrônica) do que qualquer outro país fora da América do Norte. A ajuda militar americana a Israel é a maior em todo o planeta. As Forças Armadas israelenses receberão ao longo desta década cerca de US$ 30 bilhões dos EUA. No campo diplomático, os americanos, apenas entre 2001 e 2008, vetaram dez resoluções na ONU contrárias aos interesses de Israel que seriam aprovadas se não houvesse o veto.

Obama, quando candidato, foi até a AIPAC, principal organização pró-Israel dos Estados Unidos, e disse que a “segurança de Israel é sagrada. (…) e Jerusalém permanecerá como a capital indivisível de Israel”. Um discurso conservador, onde ele negou aos palestinos o direito de reivindicar a parte oriental da cidade como capital. Eleito, manteve o silêncio durante a Guerra em Gaza. Já no poder, Obama também teve atitudes que indicavam que as relações com Israel não se alterariam muito. Charles Freeman, um diplomata crítico de Israel, teve que abandonar a sua nomeação para o Conselho de Segurança Nacional dos EUA depois de pressões sobre o presidente.

Nas últimas semanas, no entanto, a administração americana deu uma guinada demonstrando a sua insatisfação com algumas políticas israelenses. Na mesma AIPAC que Obama discursou na campanha, seu vice, Joe Biden, criticou o atual governo de Israel no início deste mês. “Vocês não vão gostar de me ouvir dizendo isso, mas [Israel] não deve construir mais assentamentos, precisa desmantelar postos avançados [assentamentos erguidos à revelia do governo] e permitir que os palestinos tenham liberdade de movimento”, afirmou. A secretária de Estado, Hillary Clinton, e o enviado especial ao Oriente Médio, George Mitchell, também pressionaram o governo israelense a levantar restrições aos palestinos e a revogar políticas como a demolição de casas palestinas em Jerusalém Oriental.

O texto acima reúne três artigos que escrevi para a edição impressa de O Estado de S. Paulo e foram publicados ontem e hoje

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