As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O medo de Damasco e Aleppo virarem Beirute ou Bagda em 2012

gustavochacra

19 de dezembro de 2011 | 10h23

Ainda estou de ferias. O blog volta a publicar posts diarios apenas depois do Natal

Veja tambem video meu sobre a Siria na TV Estadao

O futuro da Síria deve ser ainda mais sombrio e violento do que o atual presente de repressão sanguinária das forças de Bashar Assad contra uma oposição dividida entre manifestantes pacíficos e armados em Homs e algumas outras cidades da Síria, um país que por décadas se vangloriou de sua estabilidade ao lado de vizinhos mergulhados em guerras civis como o Líbano e o Iraque.

Com uma crise que completa nove meses e soma mais de 4 mil civis mortos, analistas não descartam que a violência em Homs deixe de ser a exceção para se transformar na regra, propagando-se em outras partes da Síria. Os habitantes das milenares e antes cosmopolitas Damasco e Aleppo temem se transformar em sinônimos de capitais de guerra, como Beirute dos anos 1980 e Bagdá da última década. Gerações de jovens vêem a perspectiva de uma nova onda imigratória como no início do século 20.

Isolado e enfraquecido, Assad e seu partido Baath conseguem se sustentar no poder através do apoio das minorias alauítas e cristãs (juntas, cerca de 20% da população), que estão nos postos hierárquicos mais altos das Forças Armadas, de uma aliança com as elites econômicas sunitas das grandes cidades e, no campo externo, da proteção da Rússia e, em menor escala, do Irã e do Iraque. Contra o regime, estão figuras democráticas civis dentro e fora do país, desertores do Exército e milícias salafistas armadas por grupos estrangeiros.

De acordo com o um diplomata de um dos países ocidentais do Conselho de Segurança, é urgente que estes pilares de sustentação a Assad sejam quebrados, facilitando uma transição pacífica na Síria. Esta alternativa é defendida por EUA, seus aliados europeus, Turquia e Liga Árabe.

“As revoltas militares crescerão. Três quartos da população síria é sunita. Como o serviço militar é obrigatório, existe uma representação similar no Exército. Por isso parece ser lógico que mais sunitas nas forças de segurança se voltem contra Assad. Mais pessoas também devem concluir que o líder sírio esteja perdendo e pulem para o provável lado vencedor”, diz Elliott Abrams, do Council on Foreign Relations. Porém, na avaliação dele, se este cenário não for acelerado, as divisões sectárias se agravarão e “juntar os pedaços na era pós-Assad será mais difícil”. “Por este motivo, quanto antes o líder sírio deixar o poder, melhor”, afirma.

Descartando uma intervenção militar no médio prazo diante das dificuldades geopolíticas e logísticas para uma operação similar à realizada na Líbia, os EUA, junto com os árabes, os europeus e a Turquia, têm implementado uma série de sanções que estão estrangulando a economia síria.

“As sanções devem enfraquecer o apoio a Assad em Damasco e Aleppo”, explica Ayham Kamel, da consultoria de risco político Eurasia. No entanto, segundo o analista, “não existe ainda risco de queda de queda do regime no curto prazo. Assad mantém poder considerável. As deserções são limitadas e contornáveis. Além disso, a maioria silenciosa também teme uma mudança violenta de poder e prefere cautela”.

De acordo com Joshua Landis, professor da Universidade de Oklahoma e um dos maiores especialistas em Síria dos EUA, “Assad controla o Exército e suas forças são bem mais poderosas do que as da oposição”. George Friedman, diretor da consultoria de risco político Stratfor, acrescenta que “Assad tem resistido a seus inimigos e deve continuar forte por um tempo porque os alauítas controlam os postos chaves das forças de segurança” – esta vertente do islamismo, considerada menos religiosa, é a mesmo do líder sírio.

Enquanto Damasco e Aleppo seguem na calmaria à espera da tempestade, o cenário de ódio e assassinatos religiosos, mais comuns no Líbano de décadas atrás, se tornaram cotidianos em Homs. Uma das mais sectárias cidades da Síria, esta metrópole conhecida pelo elevado número de emigrantes que partiram para o Brasil, hoje se divide entre sunitas de um lado, e cristãos e alauítas do outro.

A atriz alauíta Fadwa Soliman, uma das maiores estrelas da Síria, terra das novelas no mundo árabe, decidiu combater a narrativa do regime e assumiu o comando dos protestos em Homs. “Não há sectarismo na Síria. Quero acabar com esta mentira de que os protestos são de grupos armados, agentes estrangeiros ou radicais islâmicos”, disse em entrevista para a rede de TV Al Jazeera.

Apesar deste discurso, cristãos e alauítas dentro e fora da Síria, mesmo muitas vezes condenando a violência do regime de Assad, temem um futuro sombrio no país similar ao que vem acontecendo com os coptas no Egito e com os seguidores do cristianismo caldeu no Iraque – a maior parte deles refugiada na Síria. Cada vez mais, os sírios se sentem como os libaneses e os iraquianos, com uma identidade sectária prevalecendo sobre a nacional.

Gustavo Chacra, correspondente em Nova York, esteve na Síria para cobrir a crise por duas semanas entre setembro e outubro. Em 2010, entrevistou Bashar Assad e já visitou Damasco para realizar reportagens por quatro vezes entre 2007 e 2009

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.