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O Ocidente é responsável pela limpeza étnica de cristãos no Iraque e na Síria?

gustavochacra

14 de agosto de 2014 | 10h49

Na visão de muitos libaneses, sírios e iraquianos, incluindo a maioria dos cristãos destes países, o ISIS é uma organização criada pelos Estados Unidos , Israel e Arábia Saudita para eliminar os cristãos do mundo árabe. Os israelenses e os americanos, segundo esta visão, poderiam culpar os muçulmanos pela genocídio. A Arábia Saudita veria governos extremistas religiosos, como o de Riad, em todo a região e seria indiretamente beneficiada. Esta teoria da conspiração, que se baseia em informações erradas, inclusive citando passagens inexistentes na autobiografia de Hillary Clinton e também mencionando documentos também inexistentes que nunca foram divulgados por Edward Snowden, ganhou espaço na imprensa em Beirute – certamente a mais livre e heterogênea do Oriente Médio.

EU NAO ACREDITO NESTA TEORIA, QUE FIQUE CLARO. ESTOU APENAS COLOCANDO UMA VISÃO CRESCENTE NA REGIÃO

Antes de seguir, que fique claro, eu não acredito nesta teoria. Alguns argumentos, porém, são verdadeiros para culpar os EUA, embora não Israel, pela situação dos cristãos no mundo árabe, onde eles são alvo de limpeza étnica em partes da Síria e do Iraque e estão seguros apenas no Líbano, nas áreas controladas pelo regime de Assad na Síria e na Cisjordânia.

 1) Os cristãos viviam bem no Iraque (o vice de Saddam era o cristão Tariq Aziz) até a invasão dos EUA em 2003. Na ocasião, centenas de milhares deles tiveram de fugir para a Síria, onde Assad os recebeu e deu abrigo. Já os americanos não fizeram nada para proteger os cristãos iraquianos durante os oito anos de ocupação

 2) Na Guerra Civil da Síria, os EUA treinam grupos rebeldes contra Assad, embora o regime de Damasco tenha o apoio e proteja os cristãos (o ministro da Defesa de Assad era cristãos e foi morto em atentado da oposição), enquanto os opositores muitas vezes perseguem os cristãos sírios, chegando a crucifica-los. Isto é, os americanos se posicionaram no lado antagônico aos cristãos no conflito sírio. Os cristãos de áreas controladas pelos rebeldes tiveram de fugir para áreas do regime.

 3) Os rebeldes invadiram a milenar cidade cristã de Maaloula, onde se fala aramaico, a língua de Cristo, e os EUA não deram muita importância. Sem Assad, os cristãos sírios seriam massacrados pelos rebeldes apoiados por Hillary Clinton e John McCain. Aliás, os EUA praticamente ignoraram quando bispos cristãos foram sequestrados há anos em Aleppo por rebeldes. Imagine a gritaria se tivesse sido no Irã?

 4) O ISIS cresceu na Guerra Civil da Síria lutando contra Assad. Os cristãos árabes sabem disso e associam o grupo aos rebeldes, afinal o ISIS é o maior grupo da oposição na Síria. Embora os EUA considerem o ISIS terrorista, o governo americano apoiou os rebeldes e consequentemente, na visão dos cristãos árabes, o ISIS 

 5) No Iraque, os EUA decidiram intervir apenas quando os curdos, sejam eles sunitas ou yazidis, foram ameaçados de genocídio. Os americanos, e o Ocidente em geral, nada fizeram quando o ISIS começou a invadir cidades e vilas cristãs, levando adiante uma limpeza étnica. Enquanto nos EUA se falava de israelenses e palestinos em Gaza, no Líbano e na Síria a preocupação maior era com a situação dos cristãos no Iraque. Agora é tarde. A limpeza étnica de cristãos já ocorreu em cidades como Mosul

Agora, vocês podem me perguntar, os EUA criaram o ISIS? Não, não criaram. Os EUA querem o fim dos cristãos mundo árabe? Não, não querem.

Mas ações dos EUA no Oriente Médio, como a invasão do Iraque e o apoio aos rebeldes na Síria, sem dúvida alguma foram extremamente negativas para os cristãos árabes e são responsáveis pela limpeza étnica de cristãos no território iraquiano e em partes do território sírio. Além disso, os EUA não fizeram nada para proteger os cristãos no Iraque e na Síria. No caso sírio, inclusive, o governo Obama ajudou rebeldes, em vez de ajudar milícias cristãs em Aleppo, por exemplo. Estas dependem de Assad e da Rússia que, no fim dos contas, é única potência preocupada com os cristãos no mundo árabe.

Obs. Sou brasileiro, mas tenho origem cristã libanesa. Meu avô paterno era cristão ortodoxo e minha avó, cristã melquita (grego-católica)

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Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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