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O plano saudita de combate ao terrorismo e o renascimento da Al Qaeda no Yemen

gustavochacra

23 de fevereiro de 2009 | 20h42

A Arábia Saudita foi alvo de atentados terroristas em 2003. Suicidas se explodiram em hotéis de Aman, na Jordânia, dois anos mais tarde, matando mais de 60 pessoas. Resorts egípcios no Mar Vermelho foram atingidos por terroristas em 2004 e em 2006. Todas as ações foram cometidas por grupos ligados à rede Al Qaeda. E estes países implementaram políticas de combate ao terrorismo que reduziram a atividade destas organizações nos seus territórios, alterando os focos de potenciais alvos de ataques no Oriente Médio.

Como nos anos 1990, o Yemen mais uma vez se converteu em um dos paraísos da Al Qaeda. No mês passado, a rede terrorista se unificou em apenas um grupo em toda a península arábica. O novo grupo, segundo anúncio feito em sites islâmicos em 20 de janeiro pelo líder Nasir al Wuhayshi, consistirá na união da Al Qaeda na Arábia Saudita com a que era liderada por ele, no Yemen. A maior parte dos membros desta organização são veteranos do Iraque que se mudaram para o país.

Segundo a agência de risco de segurança internacional Stratfor, a reorganização da Al Qaeda na península arábica não foi uma unificação de iguais. Relatório da empresa ao qual o Estado teve acesso lembra que a rede terrorista está enfraquecida na Arábia Saudita. Há quase três anos, nenhum atentado de larga escala é cometido no território saudita, enquanto o Yemen é alvo constante de ataques terroristas. A própria hierarquia da nova organização indica que os membros iemenitas estão acima. Wuhayshi é o líder, enquanto o saudita e ex-prisioneiro de Guantânamo Abu Sayyaf al Shihri será o número dois. Na antiga Al Qaeda, dos tempos em que Osama bin Laden era mais ativo, o eixo era Arábia Saudita-Egito. Bin Laden no comando e o egípcio Ayman al Zawahiri, comandate do Jihad Islâmico do Egito, abaixo dele.

Esta nova reorganização se deve em parte ao sucesso do plano saudita de combate ao terrorismo e ao Yemen ser um Estado fraco. Depois de uma série de atentados terroristas em 2003, a monarquia saudita iniciou um novo plano de combate ao terrorismo. “Além dos métodos tradicionais de segurança e implementação da lei, uma estratégia paralela foi lançada para combater as justificativas ideológicas para ações extremistas dentro do reino – programas de prevenção para impedir pessoas de se envolverem em atos violentos, programas de reabilitação desenvolvidos para militantes renunciarem à violência e ações para integrá-los novamente à sociedade saudita”, escreveu Christopher Boucek, do programa de Oriente Médio do Carnegie Endowment for International Peace, no seu paper “Counter-Terrorism from Within”. A estratégia saudita envolve debates religiosos e acompanhamento psicológico dos militantes. De 1.400 envolvidos no programa, apenas 35 (pouco mais de 2%) participaram de atividades relacionadas a terrorismo posteriormente.

Já o Yemen é um país onde o governo exerce pouca autoridade e o território se localiza em uma das zonas onde operam inúmeros grupos ilegais, inclusive piratas, próximo à costa africana. O Yemen é um corredor usado por terroristas da Somália, Egito e Sudão para chegar a outros países árabes. Existe ainda envolvimento de iemenitas em tráfico de armas e uma forte tradição de lutas tribais no território.

A Stratfor acrescenta que o papel Wuhayshi também contribuiu para o fortalecimento da Al Qaeda no Yemen. Ele surgiu depois de autoridades americanas e iemenitas matarem seus antecessores em 2002 e 2003. O mais importante foram os resultados que ele conseguiu até agora, em especial o ataque contra a Embaixada dos Estados Unidos em Sanaa em setembro de 2008. Wuhayshi é hoje um dos grandes nomes da nova geração da rede terrorista, com respaldo da velha guarda, de Bin Laden. Diferentemente do que ocorreu no Egito e na Líbia, onde as unificações de grupos ligados à Al Qaeda não provocaram muitas mudanças, a expectativa é de que a Al Qaeda na península arábica se fortaleça ainda mais, especialmente com a chegada de veteranos do Iraque.

A rede terrorista tenta se reerguer depois do duro golpe que sofreu na Guerra do Iraque com a implementação do “surge” americano. Lideranças sunitas passaram a apoiar os americanos, voltando-se contra a rede terrorista. O aumento na quantidade de tropas, seguindo a estratégia do então comandante americano David Petraeus, também enfraqueceu a organização, que quase não conta com respaldo entre os iraquianos.

Os principais alvos da Al Qaeda na região ainda são os governantes considerados por eles traidores, como o presidente do Egito Hosni Mubarak, a família real saudita e o presidente do Yemen Ali Abdullah Saleh. Todos foram atacados por Wuhayshi no vídeo que ele anunciou a criação do grupo na península.

O grupo Fatah al Islam, ligado à Al Qaeda, deu início a uma campanha de ataques terroristas no Líbano no fim de 2006. Em uma ampla operação, o Exército libanês combateu o grupo no campo de refugiados de Naher el Bared, perto de Trípoli, em meados de 2007. No ano passado, a organização terrorista voltou a agir, com dois carros-bomba. A Síria também foi atingida por um atentado em setembro. O regime de Damasco acusa figuras da coalizão governista libanesa 14 de Março de financiar o Fatah al Islam. Já os libaneses dizem que os sírios são os mentores deste grupo terrorista com base em campos de refugiados palestinos libaneses.

obs. Reportagem publicada na edição impressa do jornal

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