As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O que a Coca-cola, o Blackberry e a camisa do Palmeiras têm em comum?

gustavochacra

26 de fevereiro de 2015 | 15h38

Na mesma semana que o Blackberry lançou a sua bem avaliada versão Classic, morreu o CEO da Coca-Cola nos anos 1980, Donald Keough, responsável pelo histórico episódio da Coca-Cola Classic, em 1985. Estes dois episódios deixam claro que, mesmo em meio a inovações, nós gostamos muitas vezes do clássico, do tradicional. E o marketing sabe bem mexer com nossas emoções neste sentido.

No caso da Coca-Cola, porém, foi sem querer que deu tudo certo. A empresa decidiu, depois de múltiplos estudos, substituir o sabor do refrigerante por uma nova versão. Todas as pesquisas indicavam que os consumidores iriam adorar. Mas as pessoas, mesmo antes da era das redes sociais, protestaram e pediram o retorno do antigo sabor.

Dez semanas mais tarde, a Coca-Cola reverteu a mudança e voltou ao sabor antigo, colocando o nome de Coca-Cola Classic. As vendas dispararam. Muitos afirmaram, na época, ter sido uma estratégia de marketing da empresa. Keough, no entanto, disse que eles não eram inteligentes o bastante para bolar todo este esquema. De acordo com o New York Times, até 2009, o refrigerante ainda vinha com as inscrições “Classic” na lata aqui nos EUA – o Brasil não teve esta mudança no sabor.

O Blackberry, por sua vez, foi quem realmente deu início à revolução na telefonia celular, antes do iPhone. Assim como há fanáticos pelo celular da Apple nos dias de hoje, mesmo com opções melhores na concorrência, muitos consumidores possuíam uma paixão pelo Blackberry por três principais fatores –  o e-mail funcionava em qualquer lugar do mundo quando isso ainda era raro, o teclado físico era visto como próximo da perfeição, e existia o seguro e gratuito BBM, uma espécie de whatsapp nos dias de hoje.

Ao longo dos anos, o Blackberry perdeu o espaço para os rivais. Suas inovações não agradaram e o aparelho praticamente sumiu do mercado. Depois de sucessivos fracassos, foi lançada na semana passada a versão Classic, com o teclado físico e a vantagem de rodar aplicativos do sistema operacional Android. Difícil saber se dará certo. A Coca-Cola Classic foi lançada dez semanas depois da mudança – o Blackberry, anos depois. O retorno da Coca ocorreu ainda com a empresa liderando o mercado, à frente da Pepsi. O Blackberry enfrenta um mercado ultra competitivo, dominado pela Apple e Samsung. Não sei se dará certo. Mas com certeza haverá um nicho interessado no clássico.

Mas, não podemos esquecer, clássico é clássico, não vintage. Há diferenças. O vintage é uma moda que busca algo de um passado recente, de algumas décadas atrás. A camisa do Palmeiras Parmalat é vintage, mas clássica é a que foi vestida pela academia nos anos 1970, verde e sem patrocínio. Vintage é jogar Atari, mas clássico é jogar xadrez. Vintage é se vestir como hipster. Clássico é colocar um jeans e uma camiseta. Não sei qual sobremesa é vintage, mas bala de coco e queijo com goiabada são clássicos.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Comentários islamofóbicos, antissemitas, anticristãos e antiárabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco são permitidos ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

Acompanhe também meus comentários no Globo News Em Pauta, na Rádio Estadão, na TV Estadão, no Estadão Noite no tablet, no Twitter @gugachacra , no Facebook Guga Chacra (me adicionem como seguidor), no Instagram e no Google Plus.