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O que a Suíça tem a ver com as 3 Sírias?

gustavochacra

23 de janeiro de 2014 | 21h34

A reunião na Suíça não resultará em nenhum acordo de paz, como todos nós sabemos. Especialmente porque os rebeldes que lutam entre si e contra o regime de Bashar al Assad na Síria não estão representados. Os grupos opositores que participam da negociação são praticamente irrelevantes para os acontecimentos no território sírio.

Mesmo assim, há chance de alguns avanços na Suíça, como a contenção da violência através de acordos de cessar-fogo, abertura de corredores humanitários e tentativa de mudar a narrativa para os dois lados aos poucos abrandarem suas posições. Para entender melhor, é preciso observar a divisão da Síria

Primeira Síria

Damasco e as principais cidades do país, como Homs, Hama, Latakia e Tartus, estão nas mãos do regime e compõe a “Primeira Síria”. Existem enclaves opositores na capital e em Homs e Hama. Aleppo segue dividida, mas com as principais porções controladas pelo regime. O objetivo de Assad, neste momento, é retomar o domínio da cidade, que era a maior da Síria até a guerra, por meio de acordos de cessar-fogo. Desta forma, o regime terá o controle de 14 das 15 capitais de Província sírias. Hoje tem “13,5”, levando em conta a divisão de Aleppo.

Segunda Síria

A “Segunda Síria”, são as áreas curdas e já foram abandonadas pelo regime. Assad sabe que os curdos não querem derrubá-lo do poder e tem como objetivo apenas autonomia. Neste momento, na visão do regime sírio, o melhor é deixa-los em paz.

Terceira Síria

A “Terceira Síria” é composta pelas áreas no Leste do país, controladas e disputadas pelos rebeldes. Este território se tornou terra de ninguém e vive em disputa entre três principais grupos – o ISIS, aliado da Al Qaeda; a Frente Nusrah, também parceira da rede terrorista, mas apoiada pelo Qatar; e o Fronte Islâmico, independente e conservador, com o suporte da Arábia Saudita. O Exército Livre da Síria perdeu muita força ao longo do último ano e luta para conseguir mais ajuda, especialmente dos EUA, para se reerguer

E o que pode haver de acordo?

Corredores humanitários – O regime poderia permitir a entrada de organizações de ajuda internacional dentro do país. Assad concordaria, neste caso, pois sua imagem externa poderia ser beneficiada. Os opositores também teriam a ganhar porque o regime precisaria suspender ações militares contra enclaves rebeldes em áreas como os subúrbios de Damasco para permitir a entrada da ajuda

Cessar-fogo – O regime quer um acordo de cessar-fogo em Aleppo. Assim a cidade, mesmo dividida, retomaria a sua normalidade. Os rebeldes também seriam favorecidos porque o custo para manter o controle de partes de Aleppo é enorme militarmente

Narrativa e Transição – É a parte mais difícil. O plano americano é que o regime permaneça no poder, incluindo alguns membros da oposição, mas com a saída de Assad. Seria algo similar ao que ocorreu no Yemen com Abdullah Saleh. Mas há uma série de obstáculos intransponíveis neste momento

1) O líder sírio não tem incentivos para deixar o cargo e está mais forte do que um ou dois anos atrás. Ele sabe que, se tiver eleições presidenciais, provavelmente será o vencedor mesmo se estas forem livres e com monitoramento externo

2) Os opositores no exílio aceitariam até um acordo com o regime, mas simbolicamente precisariam ver a saída de Assad, ainda que para o exílio, e não para um tribunal internacional

 3) Os rebeldes, por sua vez, têm como ambição final o estabelecimento de um Estado islâmico nos moldes do Taleban, com a queda de todo o regime 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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