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Você defende o atual regime no Egito?

gustavochacra

25 de julho de 2013 | 12h45

A discussão sobre se foi golpe ou não no Egito nunca terminará. Os defensores argumentam que 22 milhões de pessoas assinaram uma petição pedindo a saída de Mohammad Morsy e cerca de 30 milhões saíram   às ruas do país pedindo a queda do presidente.

Claro, usando um pouco de pensamento crítico, dá para no mínimo questionar estes números. As assinaturas teriam sido coletadas por um grupo de jovens e não teve nenhuma auditoria verificando a veracidade delas. Foram mesmo 22 milhões? Pessoas não assinaram duas vezes ou mais? Há falsificações?

Em segundo lugar, na praça Tahrir, maior concentração de pessoas nos protestos, cabem ao redor de 500 mil pessoas. Sem dúvida, houve aglomerações em outras áreas. Mas chegaríamos ao número de 30 milhões em todo o país, o que equivale a um terço da população do Egito, incluindo crianças e idosos?

Independentemente disso, ainda existia o argumento de que Morsy criava um Estado islâmico. Sem dúvida ele agia como um chavista e desrespeitava instituições democráticas. Mas algum processo político poderia ser implementado. Além disso, Morsy não estava estabelecendo um Estado islâmico nos moldes do Irã, como alguns incorretamente afirmam – não preciso nem me aprofundar pois, obviamente, a Irmandade é sunita e o regime iraniano, xiita.

Durante o regime de Hosni Mubarak, cristãos também eram perseguidos. Muitos eram relegados a coletar lixo. Raros eram os do alto escalão, como o célebre ex-secretário geral da ONU, Boutros Boutros Ghali (Boutros é Pedro em árabe). O índice de mulheres sofrendo mutilação genital também era recorde mundial nos anos de Mubarak, não da Irmandade. Os testes de virgindade impostos a mulheres foram estabelecidos pelos militares que fizeram a transição, não por Morsy. Para completar, claro, tem a questão de Morsy ter sido eleito democraticamente.

Mas, ainda assim, dava para aceitar o argumento de deposição, e não golpe. Não seria muito diferente do que ocorreu em Honduras com Zelaya e no Paraguai com Lugo. A diferença é que o paraguaio e o hondurenho não foram detidos e podiam dar entrevistas normalmente.

Morsy está preso sem ter cometido crime algum. Tudo bem a deposição, como escrevi acima. Pode-se ou não concordar. Mas prisão? Dele e de centenas de membros da Irmandade? Não dá para aceitar. Tampouco é possível ver como normais e democráticas as mortes de cem pessoas em ataques do governo.

Portanto chegou um momento em que até mesmo a administração de Barack Obama não aguentou e decidiu suspender a entrega de caças ao Egito. Por enquanto, a ajuda bilionária não foi suspensa e até faz sentido por questões estratégicas, na visão do governo americano. Mas a convocação de protestos para amanhã por Al Sisi, com seus óculos de general centro-americano nos anos 1970, e o possível uso destas manifestações para reprimir opositores pode mudar os cálculos em Washington.

 Por último, criticar o atual regime do Egito não significa apoiar a Irmandade. Critiquei neste blog em dezenas de posts o Morsy e seu governo. Assim como criticar Obama não implica em ser republicano. Significa apenas criticar Obama.

Obs. O mais lamentável é o Nobel da Paz Mohammad El Baradei ser conivente com o que vem acontecendo

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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