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O que significa o histórico restabelecimento nas relações EUA-Cuba?

gustavochacra

17 de dezembro de 2014 | 13h34

Em um movimento histórico, os EUA e Cuba devem restabelecer relações diplomáticas depois de mais de cinco décadas de rompimento. A embaixada americana em Havana também será reaberta, em decisão anunciada em discurso do presidente Barack Obama nesta tarde na Casa Branca e ocorre logo após a libertação de um prisioneiro americano em Cuba. Segundo o líder americano, o embargo a Cuba foi um fracasso. As negociações foram mediadas secretamente pelo Canadá por 18 meses e pelo Papa Francisco. Raul Castro também anunciou o acordo em Cuba.

A resistência a negociações com Cuba vem perdendo força nos EUA nos últimos anos. Com Fidel Castro aposentado e seu irmão mais disposto a aberturas econômicas, ainda que tímidas, o cenário aos poucos foi se alterando. No lado cubano, a economia do país está devastada e há enormes incentivos para se reaproximar dos EUA.

A política do embargo, existente desde 1961, não atingiu o objetivo de remover Fidel Castro do poder. Jovens cubano-americanos, diferentemente de seus pais e avós, acham esta medida ultrapassada, trazendo mais danos do que benefícios, segundo o New York Times.

Além disso, os EUA são aliados de regimes autoritários, como o do Egito, que recebe US$ 1,3 bilhão de ajuda militar. A Arábia Saudita, regime mais conservador do mundo, no qual mulheres são alvos de um Estado de apartheid, também é aliada americana. E a China, outra ditadura, embora rival, é uma importante parceira comercial americana e atua junto em questões internacionais como o programa nuclear iraniano e a Coreia do Norte. Aliás, mesmo o Irã, um inimigo aberto, negocia com os EUA. Por que não Cuba?

Obama já vinha tomando medidas liberalizantes em relação a Cuba, reduzindo parcialmente o embargo, deixando mais fácil para os cubanos residentes nos EUA o envio de dinheiro a seus parentes em Havana e também facilitando as viagens de cubano-americanos, como lembra o New York Times.

A maioria dos cubanos certamente sabe que o socialismo não deu certo. Por décadas, houve avanços na saúde, no esporte e na educação graças ao dinheiro soviético. Com o colapso da União Soviética, o país entrou no chamado período especial. Profissionais do entretenimento adulto hoje ganham mais do que médicos e engenheiros. Cubanos passam fome. Não há classe média. O país empobreceu e hoje depende de ajuda da Venezuela, outro país a beira do colapso com a queda no preço do petróleo e a má administração de Maduro.

Obviamente, os EUA são a melhor alternativa para Cuba se reerguer. E os irmãos Castro deveriam deixar o egoísmo de lado e abrir espaço não apenas para abertura econômica, como também para democratização. Não existe justificativa para uma família ficar no poder sem legitimidade democrática por de cinco décadas.

A iniciativa de negociar dos EUA deve deixar clara a necessidade de democratização de Cuba. Sim, tivemos ditaduras de direita no Caribe, como vimos na República Dominicana com Trujillo. Mas hoje o país é democrático. Cuba também tem de ser. E as negociações, em vez de embargo, parecem ser a melhor via.

Por último, lembro que Obama depende do Congresso para levantar o embargo, hoje controlado por republicanos, para acabar com o embargo. Não será uma tarefa simples.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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