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O que houve com o Mediterrâneo? Guerra na Síria, Crise na Grécia e Mortes no Mar!

gustavochacra

13 de junho de 2015 | 10h16

Houve um momento na história que a cultura mediterrânea era a mais forte no Oriente Médio. Um momento quando Beirute, Smyrna, Alexandria e outras cidades nesta parte do mundo estavam interligadas com Genova, Veneza, Marselha. Um momento quando mesmo o interior, com Aleppo, Cairo e Damasco, também era dedicado ao comércio. A diferença é que o mar era o deserto e as caravanas os navios.

Esta ligação do comércio mediterrâneo com o comércio do oriente tornou estas cidades as mais cosmopolitas de suas épocas. Cidades onde viviam judeus, armênios, gregos, genoveses, turcos e árabes. Claro, não era perfeito. Mas, se comparado ao resto do mundo, incluindo a Europa do Norte, na época, era um oásis de liberdade e tolerância.

As pessoas se comunicavam pela língua franca, ou sabir, que misturava um pouco de todos os idiomas do Mediterrâneo. Havia algo do português, do ladino, do espanhol, do francês, do grego, do turco e do árabe. Era uma língua falada apenas. Não deixou herança escrita. E desapareceu assim como praticamente desapareceu grande parte daquela cultura do Mediterrâneo.

Mesmo antes desta época do Mediterrâneo cosmopolita, tivemos os fenícios, os gregos e os romanos. Nossa cultura Ocidental e nossas religiões nasceram no Mediterrâneo. E boa parte da cultura oriental também nasceu no Mediterrâneo. É Istambul ou Constantinopla. É Roma. É Atenas. É a Terra Santa. É Cartago, hoje Tunísia. É Argel. É Tanger. É Mônaco e Nice. É Nápoles. É Barcelona. É Valência. É Sidon e Haifa.

Sem dúvida, na culinária, na música, nas artes e em muitas outras áreas o Mediterrâneo ainda segue culturalmente forte. Mas deixou de ser importante politica e economicamente. Hoje o Mediterrâneo tem crises econômicas no lado europeu, com a Grécia perto de um colapso, com guerras no lado oriental, com a Síria destruída, e milhares de refugiados de toda a África morrendo no mar. As duas cidades mais cosmopolitas, que são Beirute e Tel Aviv, sequer possuem comércio entre si.

Um dia, quem sabe, o Mediterrâneo oriental voltará a ser como no passado. Como escreveu uma jornalista israelense do Haaretz que esteve no Líbano, não há cidade no planeta que os israelenses gostariam mais do que Beirute. Se fossem, talvez não quisessem ir embora nunca mais.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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