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O que houve com os judeus libaneses?

gustavochacra

05 de junho de 2015 | 15h11

Os judeus habitaram o mundo árabe e islâmico por séculos e foram muito bem integrados à sociedade nas então cosmopolitas como Smyrna, Islambul, Bagdá, Aleppo, Damasco, Alexandria, Teerã, Cairo, Tanger, Tunis e Beirute. Era certamente melhor viver nestas cidades para um judeu do que na Europa cristã. Nos dias atuais, porém, encontramos comunidades judaicas apenas no Irã e na Turquia e, ainda assim, em números cada vez mais reduzidos e ambientes com aumento da hostilidade e do antissemitismo.

No mundo árabe, quase não há mais judeus. Depois da criação do Estado de Israel, entenas de milhares de pessoas foram expulsas ou se sentiram obrigadas a sair de suas casas e cidades onde viveram por séculos. Não foi de repente. No Cairo, foi quando Nasser chegou ao poder. No Yemen, houve a operação Tapete Mágico.

O Líbano, no entanto, viu a sua população judaica crescer depois da criação de Israel. Foi o único país árabe onde este fenômeno ocorreu. Judeus de outras partes Oriente Médio, especialmente da Síria, buscaram refúgio no francófono território libanês, conhecido como Suíça do Oriente Médio, com a mágica e ultra cosmopolita Beirute.

A chegada da OLP, expulsa da Jordânia, nos anos 1970, acabou com o sossego dos judeus no Líbano. Embora fossem tão libaneses quanto os cristãos maronitas, cristãos ortodoxos, cristãos melquitas, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas e drusos, passaram a ser acusados de agentes israelenses. Para complicar, em 1975, estourou uma guerra civil sectária, com o envolvimento de países vizinhos, como a Síria e Israel, tornando inviável um judeu viver em Beirute. Nos anos 1980, já não havia mais comunidade. E os israelenses, para completar, bombardearam acidentalmente a sinagoga Magen David, no centro de Beirute, que era utilizada como forte pelo grupo xiita Amal.

Uma senhora libanesa-brasileira que vive entre São Paulo e Beirute desde o fim dos anos 1940 me disse em um restaurante em Ashrafyeh, um sofisticado bairro cristão de Beirute, que nas décadas de 1950 e 1960 tinha muitos amigos judeus no Líbano. Três senhoras libanesas cristãs que vivem no meu prédio em Nova York afirmam que entre suas melhores amigas em Beirute havia tanto muçulmanas como judias.

Beirute era uma cidade com sinagogas, igrejas de diferentes denominações e mesquitas. Era uma metrópole do Levante, dos tempos cosmopolitas do Mediterrâneo. Era um sonho. Hoje, ainda se mantém como, disparado, a cidade mais liberal do mundo árabe, com seus fantásticos restaurantes e talvez uma das melhores vidas noturnas do mundo, além de uma elite poliglota e culta. Mas certamente não é mais a Beirute descrita dos anos 1950 e 1960.

Nas minhas várias visitas, vi a sinagoga Magen David destruída, sendo reconstruída e, agora, completamente reformada. Infelizmente, não cheguei a entrar. A sinagoga fica em uma área protegida de Beirute e sob enorme segurança para evitar atentados. Quem quiser visitar precisa marcar com antecedência. O impressionante, porém, é como todos os libaneses com quem converso têm orgulho da sinagoga e da história dos judeus no país. Na tradicional livraria Antoine na Hamra, há três livros sobre os judeus do Líbano.

No Brasil, conheci alguns judeus libaneses. Eles têm o mesmo jeitão da turma do Monte Líbano. Inclusive, tendem a ser fluentes em árabe, o que não é nada comum entre os libaneses de origem cristã, embora seja a regra entre de origem sunita e xiita. A comida é a mesma. São, sem dúvida, parte do mosaico libanês. Segundo alguns libaneses, ainda há algumas famílias judias vivendo no país, mas elas preferem não se expor. No passado, tentei achar judeus libaneses para uma reportagem e fracassei. Há, porém, judeus expatriados, especialmente americanos (até embaixadores), vivendo no Líbano.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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