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O que minha bisavó libanesa tem em comum com os náufragos africanos?

gustavochacra

17 Janeiro 2017 | 23h48

Teremos a posse de Donald Trump na sexta. Mas hoje vou escrever sobre o desaparecimento de 180 seres humanos que tentavam atravessar o Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. São de países do Leste da África e haviam saído da Líbia quando o barco naufragou. E o sonho acabou.

Minha bisavó também morreu em um navio ao tentar ir do Líbano para o Brasil. Ela era como estes africanos, embora formalmente uma asiática (sim, libaneses são asiáticos). Ficou doente e, como muitos imigrantes na época, morreu. O corpo foi deixado justamente no Leste da África, no Senegal, segundo consta. Meu avô Adib, junto com minha tia-avó Badia e meu tio-avô Mansour seguiram sozinhos para encontrar meu bisavô Hanna, que os esperava em São Paulo.

Outros tempos. Antes deste fatídico incidente, meu bisavô veio com a minha bisavó para os EUA. Chegaram a Nova York em novembro de 1898. A origem era Beirute. A nacionalidade? Colocaram “síria”, mesmo não existindo o país Síria na época. Enfim, entraram sem problemas. Devem ter vivido um tempo na Little Syria, onde fica hoje o World Trade Center, antes de irem para New Hampshire. Depois de uns anos, e com um filho (o Mansour), voltaram para o Líbano, antes de tentarem voltar para a América. Aliás, interessante eu e meu bisavô termos tido filhos nos EUA. Será que um dia passou pela cabeça dele que a tataraneta dele seria nova-iorquina? Mundo louco.

Hoje, diferentemente do fim do século 19 e começo do 20, ficou difícil imigrar. Uma pena. Os 180 africanos morreram no mar. E, se chegassem a Europa, possivelmente seriam colocados em campos de refugiados. Não realizariam o sonho. Mas é difícil. Cem anos atrás, as pessoas ouviam relatos do que era a “América” em cartas dos que haviam partido. Hoje, veem o “sonho europeu” o tempo todo, sem parar, na TV, no celular. Naturalmente, um habitante do interior de Gâmbia, onde o ditador acabou de decretar estado de emergência ao não aceitar o fim de seu mandato após derrota eleitoral, vai querer morar em Paris. Um da Nigéria, onde as Forças Armadas mataram ao menos 50 pessoas que fugiam do grupo terrorista Boko Haram, também pode querer morar em Londres.

Assim como italianos, alemães, japoneses, irlandeses e poloneses eram o grosso da imigração um século atrás. Irlanda era miserável. Itália era miserável. E, convenhamos, o Brasil anda bem mal e há dezenas de milhares de brasileiros em busca de uma vida melhor na Europa e nos EUA. Muita gente desiste de uma nação violenta em crise econômica, política e social e tenta ir para Portugal ou Boston para ter uma melhor oportunidade. Eu vim, como meu bisavô.

Algumas vezes achamos que certas coisas na vida são fixas – não são. Vejam a sua árvore genealógica e observe como há mudanças. Vejam a história recente. Meu avô nasceu no Líbano antes da Primeira Guerra. Meu pai nasceu em Rio Preto no meio da Segunda Guerra. Eu nasci na “falecida” maternidade Matarazzo em São Paulo faltando quase 15 anos para o fim da Guerra Fria. Sim, apesar da aparência, lembro bem da União Soviética. E minha filha nasceu em Nova York durante a Guerra da Síria, de onde veio meu bisavô – vá lá, tecnicamente Líbano porque os franceses colocaram Rachaya no lado libanês, embora esta vila sempre tenha sido mais ligada a Damasco do que Beirute.

Enfim, sei que o texto ficou com muita digressão, mas eu estava assistindo à posse do Ronald Reagan em 1981. É uma das minhas primeiras memórias. Lembro vagamente do Reagan entrando em um carro. Não sei direito. Mas sexta será a vez de Trump, que assume a Presidência da mais poderosa nação do mundo em toda a história da humanidade, enquanto 180 pessoas morrem em um naufrágio no Mediterrâneo em busca de uma vida melhor. E minha filha não vai lembrar. Muito pequena. Talvez se lembre da próxima, em 2021 – sim, farão 21 anos do bug do milênio e vivemos no futuro, do Black Mirror.