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O que significa o bombardeio de Israel a forças iranianas na Síria?

gustavochacra

30 Abril 2018 | 12h53

O risco de escalada militar entre Israel e Irã é grande, mas o ataque de ontem ainda não pode ser considerado o início de uma guerra. Uma base militar síria que seria usada pelo regime de Teerã, além de conter armamentos iranianos, foi alvejada na Província de Hama. Informações de grupos opositores sírios dizem que de 18 a 38 iranianos teriam sido mortos. Israel é suspeito de ter sido responsável.
 
Israel e Irã, no entanto, evitaram o choque por meio de suas reações. Os israelenses, como de costume, não confirmaram terem sido os responsáveis. O regime de Irã passou a dizer que nenhum iraniano foi morto. Assim, o Irã não se sente na obrigação de responder ao bombardeio israelense. Israel, por sua vez, atingiu o seu objetivo de reduzir a presença militar iraniana na Síria ao atingir a base.
 
Apenas para ficar claro, o Irã tem aproveitado a Guerra da Síria para estabelecer uma nova frente contra Israel no território sírio. Desta forma, poderia lançar operações contra o território israelense a partir da Síria, sem a necessidade de usar as dezenas de milhares de mísseis do Hezbollah no sul do Líbano. O Hezbollah não tem interesse neste momento em uma guerra contra Israel até porque o Líbano seria destruído, com as casas e famílias do grupo sendo atingidas. Uma guerra a partir da Síria muda esta equação.
 
Isso levando em conta que Israel não reagiria também contra o Líbano caso fosse atacado pelo Irã e o Hezbollah a partir do território sírio. Mas seria mais complicado, afinal o governo libanês não poderia ser culpado por algo que aconteceu fora das suas fronteiras. E tanto o premiê Saad Hariri, um sunita, como presidente Michel Aoun, um cristão, possuem muito boas conexões no exterior e fariam o possível para condenar ações israelenses contra o Líbano sem mísseis terem partido do país.
 
Israel, portanto, não aceitará a frente síria como substituta da frente libanesa. Isso está claro. Seguirá bombardeando alvos iranianos na Síria. Quer, por um lado, aproveitar o forte apoio que tem dos EUA e da Arábia Saudita para estes ataques. De outro, busca mostrar ao regime de Bashar al Assad e à Rússia que eles devem agir para impedir o estabelecimento de bases iranianas. Em hipótese alguma Israel aceitará a presença de uma frente militar iraniana contra os israelenses na fronteira. Assad certamente não quer que o regime de Teerã provoque Israel. Nunca foi do interesse de seu regime bater de frente com os israelenses – basta ver que o Golã era a fronteira mais segura de Israel até a eclosão da Guerra da Síria. O mesmo vale para Vladimir Putin, que tampouco quer atrito com Israel. Ambos, porém, dependem de forças iranianas e do Hezbollah na guerra contra jihadistas da síria.
 
A tendência é a de Israel seguir com estes bombardeios contra alvos iranianos e do Hezbollah na Síria. Não foi a primeira vez. Mas precisa calcular com cuidado – e certamente está calculando. Mas não sei até que ponto o Irã seguirá quieto. O regime de Teerã não quer uma guerra agora. Não está preparado. Quer a guerra no seu momento preferido, não no de Israel. Mas em algum momento talvez decida reagir. Caso Teerã bombardeie Israel, estamos falando da possibilidade de ocorrer maior conflito militar gigantesco que pode sugar todo o Oriente Médio e também EUA, Turquia e Rússia.