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O que vai acontecer com a Irmandade no Egito?

gustavochacra

08 de janeiro de 2014 | 18h00

Como ficará a Irmandade Muçulmana no futuro? Primeiro, devemos entender como ela estava em 2010 e como está hoje

 1. Irmandade em 2010, com Mubarak no poder

A) Era uma organização existente por décadas no Egito e, em grande parte da sua história, atuou na clandestinidade. Havia abdicado da violência 30 anos antes

 B) Embora ilegal, podia ter suas atividades sociais, incluindo hospitais e creches. Aos poucos, o ex-ditador abria um pouco o regime. Membros da entidade podiam disputar eleições como independentes e conquistavam cadeiras no Parlamento. Raros eram os que estavam presos e pouquíssimos os mortos nas mãos da regime

 C) A organização não tinha experiência de ter estado no poder. Este era apenas um sonho

 D) Contava com amplo apoio popular, especialmente de parcelas mais conservadoras da população egípcia

 2. Como ficou a Irmandade com o General Sissi no poder

A) Elegeram um presidente e a maioria do Parlamento em votação democrática. Permaneceram um ano poder, sendo alvo de críticas por não levar em consideração o restante da população egípcia,  especialmente os mais laicos

 B) Foram depostos pelos militares, em um golpe que contou com o apoio de milhões de pessoas que saíram às ruas

 C) A maior parte de suas lideranças, incluindo o presidente deposto do Egito, foram presas. Milhares de membros do escalões médio e baixo também estão atrás das grades. Muitos dos detidos são os integrantes mais experientes e moderados da Irmandade

 D) A repressão do regime de Sissi contra a organização e seus simpatizantes matou mais de mil pessoas

 E) A Irmandade se tornou completamente ilegal e mesmo suas atividades sociais, incluindo hospitais, correm risco

 F) A organização ainda conto com amplo apoio das camadas mais religiosas da população do Egito

 3. Como deve ficar a Irmandade no futuro

Com suas principais lideranças na prisão, membros mais jovens e radicais devem emergir. O fracasso do grupo no processo democrático deve dar voz para facções na defensoras de ações violentas contra o regime. O jihadismo de rebeldes visto na Síria e na Líbia deve ganhar espaço na organização. Será, portanto, uma entidade mais decentralizada e radical do que era nos tempos do Mubarak

 4. Diante deste cenário, a Irmandade pode tomar dois rumos

A) Realizar atentados terroristas, aumentando a instabilidade do país, sem necessariamente se transformar em guerrilha

 B) Agir como milícia, similar ao GIA na Argélia depois de a FIS ser barrada pelos militares argelinos nos 1990. Neste caso, o Egito corre o risco de rumar para uma guerra civil parecida com a da Argélia, mas diferente da existente na Síria, porque a divisão não é sectária – os militares e seus simpatizantes laicos também são, em sua maioria, sunitas. Os cristãos (10% da população) são mal tratados tanto pela Irmandade como pelo regime e era assim também nos tempos de Mubarak

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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