O retorno e as marcas da viagem para cobrir o terremoto em Porto Príncipe
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O retorno e as marcas da viagem para cobrir o terremoto em Porto Príncipe

gustavochacra

21 de janeiro de 2010 | 11h47

Viagem

Milhares de moradores de Porto Príncipe buscam refúgio no interior do Haiti, sem tentar partir para outros países do Caribe e mesmo os EUA, como nos anos 1990. Diferentemente do que vem sendo alertado pela ONU, são raros até mesmo os casos de haitianos que tentam atravessar para a República Dominicana, também localizada na ilha de Hispaniola, apesar de haver pacientes sendo tratados em hospitais dominicanos, conforme verificou o Estado ao viajar da capital haitiana para Santo Domingo.

A estrada de Porto Príncipe até a fronteira estava livre. Foram necessários 45 minutos para atravessar os cerca de 50 km que separam a capital haitiana da República Dominicana. Logo depois de sair dos subúrbios de Porto Príncipe, já quase não é possível ver destruição. Alguns mercados estavam abertos em vilas nos arredores da cidade. Em um grande lago, a poucos minutos da divisa, meninos pescavam e brincavam em águas relativamente limpas. Uma caravana de ajuda humanitária, com proteção militar das forças da ONU, seguia na pista oposta, em direção à capital haitiana.

Na fronteira, havia uma fila de cerca de dez carros. Todos eram de jornalistas ou de membros de organizações humanitárias atravessando para encher o tanque de gasolina. Alguns também estão alojados do lado dominicano, atravessando todos os dias para fazer reportagens e trabalhar no Haiti. Para sair do território haitiano, não é mais preciso passar por imigração. Na região do limbo, que separa os dois lados, estavam cerca de cem haitianos acampados. Em determinado momento, para dispersar uma confusão, a Polícia Nacional do Haiti utilizou cacetetes.

Os guardas do lado dominicano, com armas, apenas observam quem está dentro do carro. Eles não pediram passaporte a nenhum dos jornalistas que acompanhavam a reportagem do Estado. Em um bar na primeira cidade depois da fronteira, dominicanos disseram não ter ocorrido nada com eles porque “são católicos protegidos por Deus”. “Os haitianos fizeram um pacto com o demônio”, afirmou um deles, citando os rituais vudus. Outro acrescentou que até mesmo “a TV americana está dizendo isso”. Perguntei como eles justificavam o terremoto em El Salvador, um país que o cristianismo está até no nome. Não souberam responder.

Apesar de não haver até agora um fluxo de haitianos na fronteira, os dominicanos temem ainda uma imigração em massa de moradores do país vizinho. Mas será difícil ela ocorrer. Historicamente, a República Dominicana combate a imigração ilegal de haitianos. Ao longo da estrada, há reforços com postos de controle para verificar se há moradores do Haiti. Além disso, a própria população costuma delatar para as autoridades se ver um haitiano. E, devido à diferença da língua, fica complicado para um nativo do Haiti se misturar aos dominicanos. Ao mesmo tempo, a República Dominicana contribui com ajuda humanitária e colocou seu território à disposição de outros países para enviar mantimentos. Muitos hospitais estão lotados com pacientes transferidos do Haiti logo depois do terremoto.

Sem opção de cruzarem outra fronteira, os haitianos buscam abrigo em casas de amigos e parentes no interior do território, pouco afetado pelo terremoto. A maior parte deixou Porto Príncipe já na sexta e no sábado, quando pessoas circulavam com malas pela cidade. O problema é que muitas destas cidades, apesar de intactas, são pobres e não vem recebendo ajuda humanitária, direcionada para Porto Príncipe. Haitianos com parentes nos EUA formam uma fila de cerca de 500 metros do lado de fora da Embaixada americana na capital para tentar imigrar. Por enquanto, não começou o fenômeno de barcos tentando cruzar o mar do Caribe para chegar a Flórida. No aeroporto de Santo Domingo, principal rota de saída da ilha de Hispaniola, onde estão os dois países, não havia ontem nenhum haitiano tentando embarcar.

Marcas

Miguel, motorista dominicano que me levou junto com outros dois jornalistas de Porto Príncipe para Santo Domingo, ligou para a filha assim que cruzamos a fronteira para a República Dominicana. E começou a chorar compulsivamente. Achei estranho. Nos dias em que estávamos no Haiti, conversei com ele várias vezes sobre a final da liga dominicana de baseball e não imaginei que estivesse afetado neste ponto. Na verdade, tampouco sabia que eu também estava ficando um pouco marcado pelas cenas que presenciei.

Por email, meus editores em São Paulo, meus pais em Dubai e amigos em Nova York perguntavam se eu estava bem enquanto fiquei no Haiti. Respondia que sim. Estava mesmo. Eu dormia no máximo três ou quatro horas. Não porque tivesse pesadelos. Na verdade, sequer me lembro do que sonhava. Apenas não sentia sono em um quarto com outras 15 pessoas entrando e saindo. Na base militar brasileira, todos os jornalistas e militares pareciam estar bem. Quando cheguei a Porto Príncipe, um dia depois do terremoto, eu estava ainda excitado, querendo trabalhar e ver os estragos causados pelo tremor. Vi os primeiros corpos, as casas destruídas, as pessoas desabrigadas e os feridos sendo tratados em tendas de emergência montadas por agências humanitárias.

Conversei com soldados que perderam amigos. Outros que se salvaram por um segundo, como o capitão Guerson, que pulou do segundo andar da base do Forte Nacional no momento exato do colapso do edifício. E ainda viu dois de seus soldados serem tragados pelo desmoronamento da construção. Um tradutor haitiano me contou que havia acabado de enterrar o irmão, mas já estava a postos trabalhando na base brasileira, ainda que não tivesse conseguido informar aos pais o paradeiro dos filhos – um vivo e um morto. As pessoas me descreviam o terremoto como se fosse um episódio cotidiano ou um filme que tinham acabado de assistir no cinema, como 2012.

Ao chegar ao aeroporto de Santo Domingo para retornar a Nova York, depois de deixar os jornalistas Rodrigo Lopez e Fernando Henk, de Porto Alegre, em um hotel da capital dominicana, fiquei pela primeira vez sozinho em todos estes dias. Fiz o check-in, passei pela segurança e sentei em um restaurante do terminal. Nesta hora, meu irmão me ligou. Pedi para desligar dando uma desculpa qualquer. Uma amiga ligou em seguida e começou a fazer perguntas. Senti vontade de chorar. Não queria falar do Haiti. Mais tarde, depois de retornar a Nova York, melhorei, a não ser quando li o email da Janaína Lage, minha concorrente da Folha que virou uma grande amiga na cobertura, onde ela contou como foi o seu retorno ao Rio no avião da FAB. Mas lembro que eu e a Janaína não estávamos na hora do terremoto e já viajamos preparado para ver o que encontraríamos. Além disso, estive anteriormente em zonas de conflito. Por isso, imagino que muitos fiquem como o Miguel. “Nunca mais volto para lá”, disse o motorista, rejeitando uma oferta ótima de repórteres alemães que queriam contratá-lo.

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