O sultão solteiro de um país árabe que ficou independente de Portugal
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O sultão solteiro de um país árabe que ficou independente de Portugal

gustavochacra

14 de abril de 2009 | 09h37

Omã não tem harém. O sultão Qaboos bin Said é solteiro. Apesar de, como sultão, poder escolher a sua – ou as suas – mulheres, o governante decidiu não se casar. No mundo árabe, se multiplicam versões sobre a sexualidade de Qaboos, mas em Omã o tema ainda é um tabu.


Iate do sultão

Quase o dono do país, Qaboos deu nome à principal avenida e à maior mesquita de Muscat. No governo, além de sultão, acumula os cargos de premiê, ministro das Relações Exteriores, da Defesa, das Finanças e diretor do Banco Central.

Há um Parlamento bicameral em Omã. A Câmara Alta é composta por 71 parlamentares. Todos são indicados por Qaboos e possuem apenas a função de conselheiros. A população tem direito a voto para escolher os integrantes da Câmara Baixa, com 84 membros, mas cujo poder é simbólico.

Apesar da centralização, Qaboos tem um hábito que o aproxima do povo. Ao fim dos jantares e recepções, o sultão se dirige para os portões de seu palácio para conversar pessoalmente com os omanis, que vão, como em uma pequena cidade do interior, pedir favores ao líder do país.

Todos os anos, o sultão e um grupo de ministros viajam pelo interior de Omã para reunir-se com os líderes tribais. Dorme nas vilas e recebe conselhos sobre quais os problemas principais das comunidades.

A iniciativa deve-se ao passado recente da monarquia. Nos anos 60, seu pai, o sultão Said bin Taymur, após décadas no poder, decidiu se fechar dentro de seu palácio, em Salalah, no sul de Omã, ignorando o que se passava do lado de fora. Seu filho, Qaboos, que havia estudado na Grã-Bretanha, também foi obrigado a permanecer quase dez anos sem deixar a residência real. Distante de Muscat, o sultão passou a enfrentar levantes e até uma guerra civil. Percebendo que o sultanato corria risco, Qaboos depôs o pai e o mandou para o exílio na Grã-Bretanha, onde morreu. Aos poucos, conseguiu derrotar a oposição, consolidar-se no poder e encerrar o conflito.

Excêntrico, Qaboos recebe visitantes internacionais para passeios, mas sempre recusa convites para ir ao exterior. A dúvida é sobre quem será seu sucessor. Seus parentes mais próximos são primos. Qaboos ainda não indicou ninguém, mas mantém guardado a sete chaves o nome do próximo sultão por medo de que façam com ele o que ele fez com o pai.

Ódio de Portugal

Omã ficou independente de Portugal, como o Brasil. Mas o fim do domínio português sobre os omanis ocorreu bem antes, em 1650. Apesar de passados mais de três séculos, as marcas e o trauma da presença portuguesa ainda estão presentes na população do sultanato.


Forte Português em Muscat

Em um dos poucos livros sobre a história do país, Dawn Over Oman (“Aurora Sobre Omã”), a historiadora Pauline Searle afirma que, segundo relatos difundidos de geração em geração, “em determinado estágio da dominação portuguesa, nenhum homem morreu de morte natural no país”. Todos teriam sido assassinados por portugueses.

Pode ser exagero, conforme escreve a autora, mas retrata a imagem deixada como herança pelos europeus. Os omanis descrevem o domínio português como uma das colonizações mais “sangrentas da história”.

Os portugueses desembarcaram em Muscat poucos anos depois de Pedro Álvares Cabral avistar o Brasil. Omã localiza-se estrategicamente na rota entre o Cabo da Boa Esperança e as Índias. Por mais de cem anos, os portugueses controlaram as águas da região. No século seguinte, contudo, Portugal foi expulso de Omã. As fortalezas portugueses, porém, ainda marcam a paisagem no centro de Muscat. Ao longo da costa, é comum se deparar com fortes da era de domínio lusitano.

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