As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Obama e a dificuldade dos políticos dos EUA em criticar o GOVERNO de Israel

gustavochacra

04 de março de 2012 | 15h17

Eleições nos EUA 2012

no twitter @gugachacra

Barack Obama fez campanha eleitoral no início de seu discurso na AIPAC (organização pró-Israel) em Washington. Depois, deixou clara qual é a política americana para o Oriente Médio. Basicamente, “não retira nenhuma opção da mesa” para conter um Irã “nuclear”, incluindo “uma alternativa militar”, e defendeu a solução de dois Estados para israelenses e palestinos. Nenhuma novidade nisso. Mas nas entrelinhas vemos que o presidente discorda do governo de Israel.

No primeiro caso, Obama, mesmo sem descartar uma ação contra as instalações nucleares iranianas, não quer que Israel ataque neste momento. O presidente acredita que as inéditas sanções contra o Banco Central de Teerã aliada ao embargo ao petróleo terão o efeito desejado. Benjamin Netanyahu, com quem ele se reúne amanhã, discorda – eu tendo a concordar com o primeiro-ministro, mas creio que as armas atômicas iranianas podem ser contidas através da Teoria da Mutua Destruição Assegurada, e não de operações militares com elevado risco de fracasso.

Já na questão Israel-Palestina, Obama falou o óbvio. Defende dois Estados. Caso contrário, Israel deixará de ser judaico e democrático. Como todos estão cansados de saber, não dá para ter uma democracia, com maioria judaica e em todo o território, pois seria necessário conceder cidadania a milhões de palestinos ou instituir o Apartheid, onde milhões de pessoas teriam menos direitos do que os outros. Netanyahu até concorda com Obama, mas claramente quer o máximo possível de terras que a maior parte da comunidade internacional considera palestinas – para os israelenses, estão em disputa.

O que chamou a atenção, como todos os anos, é a necessidade de um presidente dos EUA precisar tratar Israel como algo diferente de seus outros grandes aliados, como a Inglaterra, o Canadá e o México. Eu assusto ao ver líderes políticos como o vice-presidente Joe Biden dizendo “amar Israel” e outros como Obama literalmente puxando o saco e dizendo de “supostas” ligações afetivas com o país. Isso não acontece quando eles falam dos ingleses, dos mexicanos e dos canadenses. Por que?

Quando era professor da Universidade de Chicago, Obama era próximo do meu professor em Columbia, Rashid Khalidi, um dos maiores críticos do governo – e note a palavra governo – na academia americana. O atual presidente também discordava e muito do governo de Israel. Virou político e mudou o discurso. Obviamente, se reeleito, Israel precisa se preparar. Depois, em outro post, me aprofundo de os palestinos estarem esperando para levar adiante a questão do reconhecimento do Estado na ONU.

E,  voltando para a AIPAC, acho importante eles defenderem Israel nos EUA. Lobby é uma atividade legal e a Arábia Saudita, um país árabe e muçulmano, domina melhor do que ninguém. Ao mesmo tempo, acho que eles confundem Israel com governo israelense. Outras organizações judaicas americanas, com predomínio mais jovem, sabem da diferença e têm contribuído muito para o debate. Pena que Obama tenha medo de discursar nestas entidades, como a J-Street.

No Brasil, vemos pessoas que amam o país criticando sem problemas ações da administrações de Lula e Dilma sem serem chamadas de “anti-Brasil”. O governo americano é ultra criticado por seus adversários. Mas não dá para chamar os republicanos de “anti-EUA”. Por que não poder criticar Netanyahu sem ser “anti-Israel”?

Obs. O pré-candidato republicano Ron Paul, com sua visão libertária, não vê problemas em discordar do governo israelense. Ao mesmo tempo, tampouco acho que os EUA devam se intrometer nas decisões de Netanyahu. Para ele, Israel é um país como qualquer outro.

Leiam ainda o blog Radar Global. Acompanhem também a página do Inter do Estadão no Facebook

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.