Omã é árabe, pacífico e diferente
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Omã é árabe, pacífico e diferente

gustavochacra

12 de abril de 2009 | 17h25

Alguns países árabes são conhecidos por suas disputas com Israel – como o Líbano e a Síria. A Arábia Saudita e o Kuwait são associados ao conservadorismo religioso. Catar e Emirados Árabes tornaram-se sinônimos de deslumbramento econômico. Iraque e Iêmen, nos últimos anos, dominam o noticiário por causa do terrorismo. Mas Omã, em meio ao cenário que torna o Oriente Médio uma das regiões mais faladas do mundo, passa despercebido.

Não há atentados em Omã. Os hotéis e shoppings de Muscat não obrigam os visitantes a cruzar detectores de metais na entrada. A extensa fronteira com o Iêmen não foi suficiente para que a Al-Qaeda conseguisse entrar em Omã. Tampouco os seguidores de Osama bin Laden fazem ameaças ao sultão Qaboos Bin Said, que governa o país desde 1970, quando derrubou o pai em um golpe.

Desde o fim da Guerra de Dhofar, nos anos 70, Omã não se envolve em conflitos. As fronteiras foram definidas em tratados. Há poucas disputas sectárias. As minorias xiitas e sunitas não se sentem ameaçadas pela tolerante vertente ibadi do islamismo, majoritária em Omã.

Apesar de não ser uma sociedade liberal como o Líbano, onde álcool é vendido abertamente nos restaurantes e mulheres podem namorar antes do casamento, Omã está longe de ser um regime radical religioso como a Arábia Saudita. Pode-se consumir bebidas alcoólicas sem problemas. Muitos habitantes não consomem, mas por opção. Assim como ninguém apedrejará uma mulher se ela usar biquíni na praia.

As vestimentas mudam quando se observa as omanis. Não por imposição, mas por costumes culturais, elas optam por se vestir de forma conservadora. O Estado reuniu-se com uma jovem de Omã que estudou na Suíça e nos EUA. Apesar de no exterior usar roupas ocidentais, em Omã, ela se veste de preto e cobre a cabeça. Ela foi dirigindo seu carro, o que seria proibido na Arábia Saudita. E se sentou com um homem que não era seu parente para um jantar. Algo impensável em Riad.

Omã também se difere de outros Estados da região do Golfo Pérsico por não ter problemas com Israel. Defensor da criação de um Estado palestino, o sultão Qaboos está longe de ter um discurso radical contra os israelenses. Uma judia americana disse em uma praia de Muscat que ficou surpresa por ser bem tratada mesmo após dizer que era judia – muitos judeus temem dizer a religião em países como o Líbano e a Síria.

Apesar de investimentos em cultura, como no caso do Catar, que adquiriu franquias de universidades americanas e desenvolveu a rede de TV Al-Jazira, os países do Golfo Pérsico oferecem como principais atrações pistas de esqui no deserto e corrida de camelos, além de conviver com estigma de novos ricos em outras partes do mundo.

Já o sultão Qaboos exibe gostos arquitetônicos distintos dos monarcas de Abu Dabi ou Manama. Com raras exceções, os prédios não passam do sexto andar. As construções espalham-se pela costa. O carro tornou-se um acessório obrigatório, pois, em Muscat, as distâncias são muito longas.

O centro antigo da cidade, conhecido como Mutrah, situa-se ao redor de um pequeno porto, com montanhas rochosas e ruínas de fortes portugueses ao fundo. O mercado simboliza a cidade. De uma certa forma, poderia ser descrito como um típico bazar árabe, como o Khan al-Khalili, no Cairo. Mas, contrastando com a Síria e o Egito, os vendedores têm origens diversas. Muitos são imigrantes de países como a Índia e o Paquistão.

Caso o assunto seja ameno, como preço dos tecidos, os comerciantes estarão dispostos a conversar. Quando o tópico muda para política, eles viram a cara. Obviamente, ninguém está disposto a falar mal de Qaboos. Por trás dos sorrisos e do colorido de Omã, todos sabem que existe um sultão.

Política Externa

Egito, Jordânia, Kuwait e Arábia Saudita são aliados dos EUA no Oriente Médio. Os dois primeiros mantêm relações com Israel. Do outro lado, a aliança comandada pelo Irã envolve a Síria e grupos insurgentes, como o Hezbollah e o Hamas. Omã não se posiciona em nenhum dos dois lados. Prefere adotar uma posição de neutralidade explícita, mas engajada em alcançar a paz na turbulenta região.

Diferentemente do Catar, que consegue entrar em choque com todos os lados – especialmente pelos ataques da rede de TV Al-Jazira a outros países árabes e pela tentativa de se mostrar um protagonista internacional -, Omã opta pela discrição. Muitas vezes, porém, sua importância supera o repetitivo noticiário internacional, no qual o país raramente aparece.

Diplomatas ocidentais que vivem em Muscat lembram que Omã, nos últimos anos, serviu como canal secreto de diálogo entre os EUA e o Irã. Durante a Guerra Fria, o país integrava o bloco ocidental, mas nunca teve relações estremecidas com a União Soviética.

O sultão Qaboos bin Said também teve importância na negociação para o fim da guerra entre o Irã dos aiatolás e o Iraque de Saddam Hussein, que durou de 1980 a 1988. Internamente, os omanis gostam de dizer que Omã representa para as relações internacionais no Oriente Médio o que a Suíça significa para o jogo diplomático mundial.

A neutralidade do sultão Qaboos é tão radical que ele é um dos poucos governantes do Golfo Pérsico – e do mundo – que conta com a admiração simultânea da organização terrorista Al-Qaeda, do Irã, de Israel e dos EUA.

Reportagens que escrevi e foram publicadas na edição impressa do Estadão

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