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Onde EUA e Irã podem ser amigos e onde continuam inimigos?

gustavochacra

28 de novembro de 2013 | 11h41

Os Estados Unidos e o Irã por enquanto apenas assinaram um acordo interino sobre a questão nuclear iraniana. Os dois países não restabeleceram relações diplomáticas, rompidas desde a Revolução Islâmica, e ainda podem e devem ser considerados inimigos.

Mesmo assim, vale a pena observar onde EUA e Irã possuem interesses em comum e onde divergem no Oriente Médio e na Ásia Central.

Pontos em comum

 Iraque – O Irã era o maior inimigo de Saddam Hussein, contra quem travou a mais sangrenta guerra do século passado no Oriente Médio ao longo dos anos 1980. A invasão americana para derrubar o então ditador iraquiano beneficiou o regime de Teerã. Em seu lugar, está um governo de maioria xiita de viés laico aliado dos iranianos e também apoiado por Washington. Os dois países, Irã e EUA, têm interesse na estabilidade iraquiana, no fortalecimento do governo e no combate à grupos armados opositores, muitas vezes ligados à rede terrorista Al Qaeda

Afeganistão – O regime do Taleban era inimigo do Irã. Os dois quase travaram uma guerra nos anos 1990. Com a invasão americana, assim como ocorreu no Iraque, um inimigo dos iranianos foi derrubado do poder e um aliado, Hamid Karzai, assumiu o comando do país. Embora tanto americanos quanto iranianos possuam ressalvas em relação ao atual presidente afegão, que está em fim de mandato, ambos querem a estabilidade no Afeganistão, o combate ao Taleban e à Al Qaeda

Al Qaeda – O Irã e seus aliados, Síria, Iraque e Hezbollah, são os maiores inimigos da Al Qaeda atualmente. Os americanos há duas décadas combatem esta rede terrorista. Os dois países (Irã e EUA) já trabalharam e poderiam voltar a trabalhar juntos para combater a rede terrorista especialmente no Iraque, Síria e Líbano. Grupos ligados à Al Qaeda explodiram a embaixada do Irã em Beirute neste mês

Pontos de divergência

Síria – O Irã apoia o regime de Bashar al Assad. Os EUA defendem a saída do atual líder sírio. Além disso, os iranianos estão abertamente envolvidos no conflito. Os americanos optaram por se distanciar da guerra, mantendo apenas ajuda a logística a alguns dos grupos opositores. Vale lembrar, porém, que tanto americanos como iranianos são contra as facções rebeldes ligadas à Al Qaeda, como a Frente Nusrah e o ISIS

Hezbollah – Os EUA classificam o grupo como terrorista, embora entendam o papel de seu braço político dentro do Líbano, onde é aliado de parte dos cristãos e de uma minoria sunita. Já o Irã é justamente o principal responsável pelo armamento desta organização que travou uma guerra contra Israel, maior aliado dos EUA na região, em 2006 – a organização e os israelenses também lutaram por duas décadas durante a ocupação do sul libanês

Israel-Palestina – O governo dos EUA defende uma solução de dois Estados para conflito em comum acordo entre os dois lados. A Palestina ficaria com uma fronteira próxima do padrão pré-1967. Já o Irã ainda não reconheceu oficialmente Israel. No passado, alguns de seus líderes deram declarações que podem ser interpretadas como defendendo o fim do Estado judaico

Bahrain – o Irã apoia grupos pró-democracia neste país de maioria xiita, mas controlado por minoria sunita representada pela monarquia dos Al Khalifa. Dezenas de pessoas foram mortas e milhares presas e torturadas pelo regime de Manama. A maioria delas, xiita. Os EUA condenam a violência da monarquia, mas mantém o apoio aos Al Khalifa em parte porque a base de sua Quinta Frota se localiza no país.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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