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Oposição síria precisa se distanciar de grupos terroristas

gustavochacra

22 de fevereiro de 2013 | 11h57

Damasco era uma das cidades mais estáveis do Oriente Médio até três anos atrás. Diplomatas gostavam de ir viver na capita síria devido à segurança para criar os filhos em um país que, para os padrões ultra conservadores da região, era relativamente liberal, com bons restaurantes, vida noturna, peças de teatro a proximidade com a cosmopolita Beirute, no Líbano.

Hoje, tudo mudou. Damasco é a capital que enfrenta a maior onda de violência em todo o mundo árabe. Verdade, ainda não chegou ao patamar de Aleppo, centro econômico da Síria, que se tornou um campo aberto de batalhas, com divisões de seus bairros entre o regime e diferentes facções opositoras, em uma repetição do cenário vivido em Sarajevo, na Bósnia, nos anos 1990.

A explosão do carro-bomba na parte moderna (no sentido de não ser a parte murada, milenar, da capital síria) ontem e as recentes ofensivas da oposição buscam levar para Damasco o conflito, forçando a população a adotar um dos lados na guerra, conforme bem colocou Joshua Landia, especialista em Síria da Universidade de Oklahoma. Esta, porém, não foi a primeira vez que Damasco foi alvo de um atentado terrorista nesta guerra civil e tampouco será a última.

Os opositores enfrentam dificuldades para penetrar na cidade, fortemente defendida pelas mais bem armadas forças de segurança do regime. Os grupos mais laicos, como o Exército Livre da Síria (ELS), tentam utilizar tradicionais táticas de guerrilha, buscando controlar distritos e cortar rotas de abastecimento do regime, por exemplo. Existe uma preocupação de não sair matando aleatoriamente civis. Embora ainda não tenham atingido o seu objetivo, o “viés”, como diriam os economistas, é de que eles obtenham sucesso.

Mas algumas facções da oposição síria, ligadas à Al Qaeda, não estão interessadas em efeitos colaterais e chegaram à conclusão de que a melhor alternativa para enfraquecer Assad é realizar atentados terroristas, como os de ontem. Estas ações sem dúvida assustam o regime e favorecem no sentido de finalmente levar o conflito para Damasco.

Por outro lado, possuem o efeito negativo de deixar a população da capital síria receosa sobre o que pode acontecer se o atual líder sírio for derrubado e podem mantê-los ao lado de Assad. Ninguém quer no poder uma organização que coloca carros-bomba no centro da cidade para matar civis.

Por este motivo, a oposição síria precisa urgentemente se distanciar destes grupos ligados à Al Qaeda, como a Nusra Front, considerado terrorista pelo Departamento de Estado dos EUA, mostrando que eles não representam os ideais dos rebeldes. Por mais que o alvo tenha sido Assad, eles devem condenar o atentado terrorista. Isto os deixará com maior credibilidade perante a população.

Os habitantes de Damasco, por sua vez, sabem que a cidade nunca mais será aquele oásis de estabilidade de anos atrás. Hoje, podem torcer para não ficar como Aleppo. Pelo menos, querem preservar o centro histórico da cidade, com a mesquita dos Omíadas, o quadrilátero judaico, o suq Hamidyia e o bairro cristão de Bab Touma. Mas, se tiverem condições, deveriam tentar fugir para o Líbano ou para as áreas próximas da costa mediterrânea, ainda não atingidas pela guerra.

É uma tristeza, mas Damasco, com 10 mil anos de idade, pode sofrer uma das maiores destruições de sua história.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009 e comentarista do programa Globo News Em Pauta, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti, Furacão Sandy, Eleições Americanas e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen.  No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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