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A mega operação da Irmandade para conquistar votos na boca de urna

gustavochacra

30 de novembro de 2011 | 13h22

no twitter @gugachacra

Antes de começar, entrem para escolher no portal do Estadão o fato mais marcante de 2011.

Com uma rede de voluntários espalhados por todo o Egito, a Irmandade Muçulmana demonstrou bem mais preparo do que seus adversários salafistas e seculares na condução do processo eleitoral no maior país árabe do mundo.  Favorita, a entidade islâmica, devido a esta mega-operação, deve ter ainda mais votos para o Parlamento do que o previsto inicialmente, segundo analistas.

Seus membros estiveram presentes em postos eleitorais de cidades grandes, como Cairo e Alexandria, e também de pequenas vilas no interior para auxiliar os eleitores em uma complicada votação, de acordo com observadores internacionais. Diante de uma falta de organização do governo, o partido islâmico servia como instrutor para quem não entendesse como funcionava o sistema.

Por incrível que pareça, o partido conservador soube usar a modernidade de campanhas eleitorais ocidentais para derrotar agremiações laicas que ficaram no passado.

“A Irmandade montou uma rede de voluntários muito superior às dos rivais para treinar os eleitores. Em alguns casos, ensinava como eles deviam fazer para votar no partido. Desta forma, o Partido da Justiça e da Liberdade, da Irmandade, deve ter um desempenho bem acima do esperado. Dificilmente eles ficarão decepcionados com os resultados”, disse Hani Sabra, da consultoria de risco político Eurasia.

Ed Husain, do Council on Foreign Relations (CFR), seguiu na mesma linha. “Eleitores confusos pediam ajuda a voluntários da Irmandade para entender o sistema. Eles estavam espalhados ao redor do Cairo com laptops em mesas de campanha com duas instruções. Primeiro, sobre como votar. E, em segundo lugar, como votar para a Irmandade Muçulmana”, afirmou.

Os adversários também admitiam que não souberam montar uma estratégia para os dias da eleição e viam o preparo da Irmandade como um diferencial na busca dos votos.  “Nós não espalhamos nossos militantes e tampouco estivemos perto o suficiente dos eleitores. Outros partidos foram mais experientes em conseguir apoio efetivo”, disse Emad Abdel Ghafour, de um partido salafista, ainda mais radical do que a Irmandade. Os partidos seculares, apesar de alguns de seus membros terem estado na vanguarda do uso de redes sociais, tampouco souberam explorar o dia da votação como os rivais islâmicos.

Quando começaram os protestos, a Irmandade manteve uma distância dos acontecimentos na Tahrir. Porém analistas já advertiam na época que o grupo islâmico era o único preparado para uma eleição. Desta forma, agremiações mais seculares queriam mais tempo para poder se organizar no processo eleitoral. O prazo foi considerado muito curto para formar partidos fortes depois de décadas de ditadura.

Membros da Irmandade dizem ter a expectativa de conseguir cerca de um terço do Parlamento. Junto com algumas agremiações islâmicas menores, eles podem conseguir uma maioria conservadora em questões religiosas no Egito. Este resultado deve assustar os egípcios mais seculares e também os cristãos coptas, que representam um décimo da população e reclamam de preconceito. Husain, do CFR, avalia que existe um risco de estes setores se aliarem a membros do antigo regime contra a Irmandade. Na época de Mubarak, o partido islâmico era considerado ilegal.

Além do preparo da Irmandade, a eleição parlamentar no Egito tem sido marcada por um elevado comparecimento às urnas. De acordo com autoridades egípcias, o número pode passar dos 70% nesta primeira etapa, na qual 17 milhões de pessoas tem o direito de votar. O resultado final da disputa parlamentar está previsto para o dia 11 de janeiro em um processo que durará mais de seis semanas.

Na semana passada, havia o temor de que menos pessoas fossem votar diante dos protestos na praça Tahrir e da repressão violenta por parte dos militares, que comandam a transição.  No fim, tudo tem sido calmo.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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