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Os defensores da queda de Assad colocariam quem no lugar? O ISIS ou a Al Qaeda?

gustavochacra

16 Setembro 2015 | 15h17

Sempre me pergunto o que os defensores da deposição de Bashar al Assad pretendem colocar no lugar na Síria. Tem três opções – a Al Qaeda, o Jaish al Islam (Exército do Islã) ou o ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh). Simplesmente, não há condições de importar a democracia norueguesa para Damasco neste momento e tampouco dava no passado, no começo da crise.

Sem dúvida, Assad cometeu e comete atrocidades, incluindo crimes contra a humanidade, segundo a ONU. Mas as os seus opositores também cometem. E com uma diferença – eles matam pessoas pelos simples fato de elas serem alauítas ou cristãs. Assad, por sua vez, concede proteção a minorias religiosas como a cristã. Além disso, seus opositores, como a Al Qaeda e o ISIS, cometem atentados terroristas em outras partes do mundo.

Assad comanda um regime laico, com ateus, cristãos, aluaítas, sunitas (seus dois vices, seu ministro da Defesa e sua mulher são sunitas) e drusos. Não é democrático, mas pesquisa encomendada pela BBC indica que Assad é quem mais desfruta de popularidade na Síria – cerca de 50%. Em Damasco, o apoio ao líder sírio chega a 60%. Basta comparar com líderes em outros países, incluindo do Ocidente.

A Rússia, portanto, concluiu que apoiar Assad é a melhor forma de derrotar o ISIS e a Al Qaeda. Com uma estabilização em pelo menos parte do território, no longo prazo, sem dúvida dá para fazer uma transição com a saída do líder sírio do poder. Mas, se o tirassem agora, a guerra da Síria iria se agravar.

O lado hoje pró-governo se pulverizaria em várias facções com agendas próprias. Os armamentos do regime ficariam com quem os pegasse primeiro. Damasco, Homs, Hama e a Costa Mediterrânea veriam o conflito se acentuar. Outros milhões de sírios iriam buscar refúgio em outros países. Cristãos e alauítas correriam risco de genocídio. O ISIS e a Al Qaeda se fortaleceriam ainda mais. Aleppo deixaria de existir.

Na Segunda Guerra, os EUA se aliaram aos soviéticos para derrotar os nazistas. Hoje o ISIS e a Al Qaeda são o equivalente dos nazistas. Para derrota-los, apenas com a ajuda da Rússia. É mais ou menos o cenário na Guerra da Síria.

Em tempo, entendo e concordo que não dá para os EUA apoiarem Assad. Afinal, o governo americano não quer associação com um regime que cometeu crime contra a humanidade. A saída, portanto, é deixar os russos fazerem o trabalho. Israel pode ficar tranquilo também. Os israelenses sabem bem que Assad é a melhor alternativa para eles. Além disso, com a Rússia, talvez o Irã e o Hezbollah sejam um pouco contidos, especialmente na tentativa deles de transformar as Colinas do Golã em uma nova base de lançamentos contra Israel.

Agora, talvez dê completamente errada a intervenção russa, assim como vem dando a intervenção da Arábia Saudita no Yemen. Mas, pelo menos, desta vez, não poderão culpar os EUA.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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