As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os descendentes de brasileiros nos EUA

gustavochacra

04 de fevereiro de 2010 | 03h31

Daqui a pouco, as pessoas dirão nos Estados Unidos e em alguns lugares da Europa que são descendentes de brasileiros. No fim de semana, estive em uma estação de esqui do Colorado. E notei que, além da tradicional elite paulista que frequenta as estações de Aspen, Vail e Snowmass, as montanhas estavam lotadas de trabalhadores brasileiros que se mudaram para o “velho-oeste” atrás de dinheiro, de um amor ou mesmo de uma aventura. Não estavam nas neves para aprender snowboard ou esqui. Estavam servindo mesas nos restaurantes e atendendo pessoas nas lojas. Alguns são imigrantes definitivos. Deixaram o Brasil para viver nos EUA definitivamente. Não apenas por quatro, cinco anos, até conseguirem juntar dinheiro. Querem ficar aqui, ter filhos aqui e se aposentar aqui, seja no Colorado, na Flórida ou em Nova York. São tão imigrantes quanto irlandeses, gregos ou italianos que passaram por Ellis Island há mais de um século.

Um exemplo é a Gisele Bündchen, que se mudou de vez para os EUA e deve envelhecer em Boston ou no West Village, distante da sua Horizontina. Seu filho, Benjamin, dirá que tem origem brasileira, e não alemã, como a mãe. Outro dia, notei que sites especializados em pólo aquático descreviam Tony Azevedo, capitão da seleção americana e medalha de prata na Olimpíada, como americano de origem brasileira. Paulo Klüber, um amigo meu e ex-estudante da Universidade Columbia, nasceu em Ponta Grossa, no Paraná. Conversando com ele, logo se nota pelo sotaque suas longas passagens por Los Angeles, Washington DC, e agora Nova York, apesar de ele insistir com veemência sua origem brasileira. Neste caso, ele ainda ressalta a ascendência alemã do Volga, de ancestrais que antes de imigrarem para o Brasil passaram um século na Russia. Mas seus filhos talvez afirmem que são descendentes de brasileiros.

Isso tudo é estranho para nós brasileiros. Somos acostumados na classe com colegas descendentes de italianos, portugueses, alemães, judeus-poloneses, sírios, africanos e japoneses. Verdade, existem os quatrocentões que se dizem de “famílias tradicionais brasileiras”. Mas estes são a mistura de portugueses, africanos e indígenas. Aliás, os índios são os que poderiam dizer serem originalmente brasileiros. Mas são apenas uma parcela pequena da população e sem histórico de se mudar para outros países, a não ser os fronteiriços.

Ao mesmo tempo, o inverso ocorre. Países que no passado viam seus habitantes embarcando em navios para fazer a América, hoje recebem moradores nascidos no outro lado do Atlântico. Na Espanha, Itália, França, Alemanha começam a haver classes como as paulistanas, com pessoas com sobrenomes diferentes dos tradicionais. Em vez de Buenos Aires receber espanhóis, Madri recebe argentinos. Ninguém acreditaria neste cenário mesmo até a metade do século 20. Aliás, nem mesmo até o fim do franquismo, nos anos 1970.

Mas, voltando ao assunto “descendentes de brasileiros”, não podemos esquecer de Americana, no interior de São Paulo. Nesta cidade, houve uma imigração no fim do século 19 de americanos do sul dos EUA. Entre eles, descendentes do general Lee. Aliás, aí já está a explicação para o sobrenome da Rita Lee, uma descendente de americanos.

Meu bisavô libanês Hanna Chacra chegou a viver nos EUA no início do século passado, quando nasceu meu tio-avô Mansur, em New Hampshire. Posteriormente, voltou ao Líbano, onde nasceu meu avô Adib, antes de imigrar definitivamente para o Brasil. Os netos do ramo do Mansur, esnobando, se dizem descendentes de “americanos”, e não de libaneses. Ironicamente, o meu sobrinho poderá dizer a mesma coisa, já que meu irmão nasceu nos Estados Unidos nos tempos em que meus pais viviam no Texas. Será “um descendente de americanos”, não de libaneses e italianos, como seriam os meus, ainda não nascidos.

Daqui algumas décadas, viajando por Aspen, talvez encontre alguém perdido com a camisa do Cruzeiro dizendo em inglês que era do avô que imigrou de Minas Gerais. O português dele terá sido esquecido. Provavelmente, nem saberá que o seu time se chamava Palestra Itália e foi fundado por imigrantes italianos para Belo Horizonte. É o novo mundo. O Brasil deixou de ser a terra dos imigrantes para ser o país dos emigrantes. E já temos a nossa geração de “nisseis” – os descendentes de brasileiros.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: