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Os EUA estão certos em suspender a ajuda ao Egito?

gustavochacra

09 de outubro de 2013 | 19h38

O Egito era uma ditadura quando assinou o acordo de Camp David com Israel há mais de três décadas. No comando, estava Anwar Sadat. Depois de sua morte, por 30 anos, o Egito seguiu sendo governado por uma ditadura,liderada por Hosni Mubarak.

Depois de Revolução de 2011 na Praça Tahrir, houve uma transição política em direção à democracia comandada pelos militares. Em meados de 2012, foram realizadas eleições presidenciais e o vencedor foi Mohammad Morsy, da Irmandade Muçulmana. Um ano mais tarde, o presidente foi deposto pelas Forças Armadas, em meio a gigantescos protestos no Cairo, Alexandria e outras grandes cidades.

Naquele momento, as Forças Armadas do Egito possuíam duas opções. A primeira seria agir como o Paraguai e  Honduras, onde presidentes democraticamente eleitos foram depostos, assim como Morsy. Mas, nestas nações latino-americanas, convocaram eleições o mais brevemente possível e hoje elas são governadas por presidentes também escolhidos em eleições livres.

A segunda opção seria voltar para os tempos da ditadura. Foi o que o Egito escolheu. Hoje há um regime militar comandado pelo general Sisi, que conta sim com amplo apoio popular. Mas, ao mesmo tempo, reprime com enorme violência os opositores da Irmandade Muçulmana, matando milhares deles e prendendo suas lideranças mesmo sem a maior parte delas ter cometido delitos.

Os EUA concedem mais de um US$ 1 bilhão em ajuda militar para o Egito todos os anos. Nos últimos três meses, a administração de Barack Obama vinha demonstrando a sua insatisfação com o regime de Sisi, suspendendo exercícios militares conjuntos e também a entrega de caças. Agora, decidiu congelar também a maior parte da ajuda militar, embora mantenha nas áreas de combate ao terrorismo no Sinai.

Esta atitude, por um lado, demonstra que os EUA não estão sendo hipócritas em relação ao Egito. Isto é, deram tempo suficiente para Sisi agir como hondurenhos e paraguaios. Mas ele optou por ser um Mubarak, ou até pior, pois mata bem mais do que o ex-ditador.

Autoridades israelenses reclamaram. Temem, com razão, que a atitude de Obama prejudique o processo de paz. Afinal a ajuda militar integra os acordos de Camp David. Mas não dá para ter uma paz comprada com os militares do Egito sendo mimados pelos dólares americanos. Em segundo lugar, não necessariamente os egípcios romperão os acordos com os israelenses. É melhor esperar. Se romperem, tendem a ficar isolados internacionalmente.

Para o regime de Sisi, a perda da ajuda é significativa. Mas ela tende a ser suplantada pelo dinheiro enviado por nações do Golfo como a Arábia Saudita. Vamos ver, agora, como o general irá se comportar em relação aos EUA. 

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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